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Chips: Europa corre para não ficar para trás na fábrica de IA

TECNOLOGIA
Chips: Europa corre para não ficar para trás na fábrica de IA

A belga IC-Link acaba de entrar na aliança 3DFabric da taiuanesa TSMC, a maior fabricante de chips do mundo. O detalhe que importa: não é sobre um único chip, mas sobre quem controla toda a cadeia de produção de inteligência artificial, energia, memória, embalagem avançada (a forma como vários chips se conectam como peças de um quebra-cabeça) e software. A Europa está correndo atrás de soberania em um território onde China e EUA já dominam há anos. E o Brasil segue completamente fora dessa partida.

Até pouco tempo, a disputa pelo poder da tecnologia girava em torno de quem fazia o melhor chip isolado. Agora, a lógica mudou. "A próxima fase da infraestrutura de inteligência artificial não será definida por uma única unidade de processamento gráfico, arquitetura de chip ou modelo. Computação, memória, rede, embalagem, energia e software estão convergindo numa nova arquitetura de sistemas, com soberania emergindo como consequência desse deslocamento", segundo análise da indústria de semicondutores.

A TSMC fabrica a maioria dos chips mais avançados do mundo, incluindo os processadores que rodam modelos de IA como o ChatGPT. Taiwan controla cerca de 54% da produção global de chips, e mais de 90% dos semicondutores mais sofisticados. A China investe bilhões em autossuficiência semicondutora depois que os EUA a bloquearam do acesso a tecnologia de ponta. A Europa, por sua vez, tenta reduzir a dependência: a Comissão Europeia lançou em 2023 o Chips Act com 43 bilhões de euros para fortalecer produção doméstica. A entrada da IC-Link na aliança TSMC é um passo nessa direção, abre um caminho verificado para que empresas europeias acessem embalagem avançada sem precisar de acordo direto com a gigante taiuanesa.

O que está em jogo é quem comanda a infraestrutura que alimenta a IA dos próximos anos. Não é só sobre chips: é sobre energia (data centers consomem quantidades gigantescas), sobre as fábricas que os produzem, sobre quem tem acesso à tecnologia de última geração e sobre quem pode impor restrições comerciais. Um país que controle essa cadeia pode acelerar sua economia de IA, ou estrangular a de um rival. Taiwan e os EUA já perceberam. A China também. A Europa está acordando. O Brasil, nem entrou na conversa.

Para o Brasil, a consequência é indireta mas concreta. O país não tem fábrica de chips de relevância global. Depende da importação tanto para celulares quanto para máquinas agrícolas (que usam cada vez mais processadores) e sistemas de energia. Se o mundo se dividir em blocos de acesso a semicondutores avançados, um possível cenário de fragmentação geopolítica, o Brasil pode ficar refém de escolhas de Washington, Pequim ou Taipei. Além disso, empresas brasileiras de tecnologia agrícola, inteligência artificial e IoT precisarão pagar mais caro ou enfrentar atrasos para acessar chips de ponta.

Por que importa: a corrida por semicondutores determina quem lidera em inteligência artificial, energia limpa e automação, os setores que vão definir a economia da próxima década. Um Brasil sem presença em fábricas ou design de chips fica dependente de importações em um momento em que a geopolítica está fragmentando as cadeias globais. A conta fica mais cara, o acesso fica mais lento, e a autonomia tecnológica do país encolhe.

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