Jaser Abu Mousa, pesquisador sênior do Middle East Institute, descreveu ao New Yorker o cotidiano em Gaza com detalhes que poucas reportagens conseguem capturar: prédios destruídos que continuam desabando, famílias deslocadas vivendo em abrigos provisórios, infraestrutura que não se recupera. Sua voz vem de quem ainda está lá, conversando com civis. E enquanto ele relata o sofrimento concreto, um movimento paralelo ganha força nos foros internacionais: governos africanos intensificam o isolamento diplomático de Israel, reanimando uma solidariedade com a Palestina que nunca arrefeceu desde os anos 1940.
A destruição em Gaza não é mais notícia, o que muda é o reconhecimento de que ela está produzindo duas consequências simultâneas. De um lado, o desespero humanitário: dezenas de edifícios colapsam semanas ou meses após os bombardeios iniciais, matando civis adicionais em eventos que parecem acidentes mas são herança da guerra que começou após o massacre de 7 de outubro de 2023. Abu Mousa documenta esse ciclo de morte lenta e destruição contínua através de conversas diretas com habitantes. Do outro lado, a resposta política do Sul global, especialmente de países africanos, que transformou a questão palestina numa prioridade de blocos alternativos ao Ocidente.
A solidariedade africana à Palestina não é nova. Remonta aos anos 1940, quando movimentos de libertação no continente e no Oriente Médio caminhavam juntos contra colonialismos europeu e sionista. Mas o que se vê agora é uma ressignificação desse vínculo dentro de uma estratégia maior: na Assembleia Geral da ONU, em foros multilaterais e em cúpulas regionais, países africanos votam sistematicamente contra Israel, apoiam resoluções de condenação e trabalham para isolar diplomaticamente Tel Aviv. Não é solidariedade sentimental; é geopolítica do Sul global tomando forma.
Essa pressão diplomática encontra seu contrapeso no relato humanitário. Enquanto governos se posicionam, Abu Mousa e outros observadores diretos documentam as consequências para quem fica: a falta de água potável, a escassez de medicamentos, as escolas destruídas. A guerra em Gaza não é apenas um conflito regional; virou metáfora de um mundo dividido entre quem decide (potências ocidentais) e quem resiste (coalizões do Sul). Os sobreviventes em Gaza são evidência viva dessa divisão.
A mobilização africana vai além do voto na ONU. Sociedades civis no continente ganham voz em campanhas globais, universidades discutem o conflito sob lentes decoloniais, e a narrativa da Palestina se entrelaça com histórias locais de ocupação e injustiça. Tudo isso alimenta um isolamento crescente de Israel em espaços onde antes havia margem para diplomacia. A questão deixa de ser "o conflito é complexo" para ser "qual lado você escolhe".
Por que importa: O Brasil participa dessa dinâmica. Como membro do BRICS e do Sul global, o país tem votado repetidamente contra Israel em organismos internacionais e enfrenta pressão crescente de movimentos pró-Palestina. Se a solidariedade africana seguir esse ritmo, o cenário diplomático pode se polarizar ainda mais, isolando Israel de alianças que antes eram naturalizadas. Além disso, o conflito amplifica a fragmentação do sistema internacional: blocos que divergem sobre Palestina também divergem sobre Ucrânia, clima e comércio. Para o Brasil, navegar essas divisões enquanto busca parcerias estratégicas virou mais complicado, e mais urgente.
