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Malásia enfrenta pressão para não devolver rohingyas a Mianmar

GEOPOLÍTICA
Malásia enfrenta pressão para não devolver rohingyas a Mianmar

Mais de 160 organizações civis pediram ontem ao premiê da Malásia, Anwar Ibrahim, que cancele planos de deportar refugiados rohingyas para Mianmar. O motivo: lá, eles enfrentam risco de morte, violência contínua e recrutamento forçado para o exército. O anúncio de Anwar, feito na semana passada, inclui até um convite ao líder militar birmanês Min Aung Hlaing para acelerar as repatriações. A pressão expõe um dilema real do Sudeste Asiático: países que recebem fluxos migratórios gigantescos sem ferramentas regionais para proteger refugiados.

A Malásia abriga cerca de 180 mil rohingyas registrados pelas Nações Unidas, além de dezenas de milhares sem documentação. Os rohingyas, minoria muçulmana perseguida em Mianmar há décadas, fugiram em larga escala após 2017, quando o exército birmanês iniciou uma ofensiva que matou milhares e deslocou mais de 700 mil pessoas. Desde o golpe militar em Mianmar no início de 2021, a violência só cresceu. Qualquer devolvida representa um risco real de prisão, morte ou ser forçado a pegar em armas para um regime que os persegue.

O premiê Anwar tem enfrentado pressão política doméstica. Setores da Malásia reclamam dos gastos públicos com refugiados e da concorrência por empregos, uma narrativa comum em países receptores. Convidando Min Aung Hlaing, ele sinaliza vontade política de "resolver" o problema rohingya rapidamente. Mas as organizações civis alertam que deportações violam convenções internacionais de proteção de refugiados, que a Malásia assinou.

O caso ilustra uma falha estrutural no Sudeste Asiático: não há mecanismo regional robusto para compartilhar a responsabilidade de acolher deslocados. Tailândia, Bangladesh e Indonésia também hospedam milhões de refugiados sem suporte coordenado. Quando um país tenta agir sozinho, costuma desistir sob pressão doméstica, e os refugiados ficam presos entre riscos no exterior e repatriação forçada para um lugar perigoso.

Anwar, que construiu sua imagem internacional como defensor de direitos humanos, agora enfrenta crítica. As organizações civis afirmaram que "deportações forçadas violam obrigações internacionais e expõem pessoas a risco grave de perseguição e morte". É um teste de coerência política para um premiê que chegou ao cargo prometendo reformas democráticas.

Por que importa: O Brasil é signatário das mesmas convenções de proteção de refugiados que a Malásia e recebe migrantes forçados (haitianos, venezuelanos, sírios). Se a Malásia conseguir flexibilizar regras internacionais de proteção sob pressão doméstica, isso enfraquece a rede global que também protege brasileiros no exterior. Além disso, reforça o precedente perigoso: quando refugiados viram custo político, países simplesmente os devolvem para locais inseguros. É um padrão que afeta qualquer nação que dependa de acordos internacionais de direitos humanos.

Fontes