Um prédio desaba em Gaza City e mata pelo menos vinte e uma pessoas, muitas delas crianças. O edifício estava danificado pelos ataques aéreos israelenses. Não é uma notícia isolada: é o retrato de um colapso. Três anos após o início da guerra em outubro de 2023, a Faixa de Gaza virou um lugar onde não existe mais segurança, nem dentro de casa nem fora dela. O pesquisador Jaser Abu Mousa, do Centro de Estudos do Oriente Médio (com sede em Washington), concedeu entrevista à revista The New Yorker descrevendo a vida cotidiana nesse cenário de destruição. Suas observações, combinadas com relatos de famílias abrigadas em prédios à beira do colapso, revelam uma crise humanitária que agora começa a pressionar a política externa dos países envolvidos.
Abu Mousa, que fala com pessoas em Gaza regularmente, descreve um estado onde os civis lidam com destruição generalizada e deslocamento forçado. Segundo ele, as famílias não têm alternativas seguras e continuam habitando estruturas danificadas porque simplesmente não há para onde ir. O que diferencia esse momento dos primeiros meses da guerra é justamente isso: não se trata mais de uma crise aguda em evolução, mas de uma situação estabilizada na miséria. As pessoas aprendem a viver entre escombros. As crianças nascem e crescem nesse ambiente.
A destruição da infraestrutura civil é extensa. Prédios inteiros foram danificados pelos ataques aéreos. Hospitais, escolas, casas residenciais ficaram inúteis ou perigosos. As famílias que sobreviveram aos bombardeios enfrentam agora um segundo perigo: o colapso estrutural dos edifícios onde buscaram refúgio. O caso do prédio em Gaza City que desabou esta semana é apenas o mais visível de uma tendência que continua acontecendo. Cada queda de estrutura mata civis e reforça a mensagem de que não existe segurança em lugar algum.
Esse cenário começa a produzir consequências políticas. Governos internacionais, incluindo aliados tradicionais de Israel, enfrentam pressão crescente de suas populações para mudarem posição. A sustentação de uma guerra cuja marca visível é o sofrimento diário de civis em edifícios prestes a ruir gera custos políticos cada vez maiores. Mesmo países que apoiam militarmente Israel precisam agora justificar publicamente o apoio contínuo enquanto imagens de crianças mortas em desabos circulam globalmente. A dinâmica não é mais sobre objetivos militares, mas sobre o desgaste político do prolongamento do conflito.
Abu Mousa observa que a vida em Gaza se tornou sobretudo isso: improviso e espera. Não há dramas bélicos evidentes no dia a dia, mas um sofrimento banal e permanente. As famílias acordam, buscam água e comida escassa, tentam proteger os filhos em estruturas deterioradas e dormem com medo de que o teto desabe durante a noite. Essa rotina sem saída começa a reverberar nas capitais ocidentais, onde políticos precisam explicar por que continuam apoiando uma operação militar cujo resultado visível é o colapso civil.
A pressão sobre a política externa brasileira também cresce, ainda que de forma menos direta. O Brasil vota regularmente nas Nações Unidas sobre resoluções relacionadas ao conflito. Embora o país frequentemente se abstenha ou apoie moções humanitárias, a continuação da crise sem perspectiva de solução torna cada votação mais delicada politicamente. Além disso, a instabilidade no Oriente Médio afeta o preço do petróleo, que impacta o custo da gasolina na bomba brasileira e alimenta a inflação interna. Quanto mais longa a guerra, maior o risco de que tensões regionais disparem o preço do barril e aprofundem a pressão inflacionária sobre brasileiros comuns.
Por que importa: A crise humanitária em Gaza não é apenas uma tragédia distante. Ela afeta diretamente o custo de vida no Brasil. Conflitos no Oriente Médio historicamente pressionam os preços do petróleo para cima, elevando o que você paga na bomba e contribuindo para inflação nos alimentos e serviços. Além disso, o prolongamento indefinido da guerra sem perspectiva de paz aumenta a instabilidade regional, criando riscos para outras economias. O Brasil, como membro do Conselho de Segurança da ONU (organização que coordena respostas internacionais a crises), vê crescer a pressão para tomar posições mais definidas, impactando suas relações diplomáticas e comerciais no mundo árabe.
