Três países periféricos vivem conflitos e transições que a grande imprensa ignora, mas que reverberam no preço global de energia e no custo de vida no Brasil. No Sudão, drones atingem civis em guerra civil desde 2023. Na Malásia, mais de 160 organizações tentam barrar a deportação de rohingya (minoria muçulmana perseguida em Mianmar) para um país onde enfrentariam violência e alistamento forçado. E na Nigéria, maior produtor de petróleo da África, o governo discute como aproveitar o gás natural não só para exportar, mas para eletrificar o país. Juntas, essas crises montam um padrão: decisões marginalizadas no debate internacional que impactam energia, refúgio e estabilidade global.
O conflito no Sudão começou em abril de 2023 entre o exército regular e as Forças de Apoio Rápido, uma milícia paramilitar. Desde então, centenas de milhares de pessoas foram deslocadas, cidades inteiras destruídas e drones, tecnologia que prolifera em conflitos periféricos, executam ataques contra civis. Moradores de Um Ruwaba, no centro do país, relatam que ataques aéreos e terrestres não distinguem combatentes de populares. Hospitais desabam, escolas viram ruínas. O caos empurra refugiados para vizinhos como Egito, Etiópia e Chad, desestabilizando uma região já frágil. Nenhum embargo internacional sério pressiona as partes; o conflito segue invisível nas capas dos jornais ocidentais.
Na Malásia, o primeiro-ministro Anwar Ibrahim planejava repatriar rohingya para Mianmar, onde a junta militar ainda controla o país. Mais de 160 organizações de direitos humanos protestaram publicamente, alertando que os refugiados enfrentariam "violência em curso e alistamento forçado na milícia". Anwar até convidou o líder militar Min Aung Hlaing para negociar o retorno. O dilema revela a dinâmica periférica: países pobres com grande fluxo de refugiados buscam alívio empurrando o problema para frente, e minorias perseguidas ficam sem porto seguro. Cerca de 184 mil rohingya vivem na Malásia, frequentemente em campos sem status legal, trabalhando informalmente e invisíveis.
Na Nigéria, o ministro de Petróleo Ekperikpe Ekpo reafirmou em conferência recente que o país precisa usar seu gás natural não apenas para exportação lucrativa, mas como combustível de transição para eletrificar milhões de nigerianos. "É importante enfatizar que a transição energética deve refletir nossas realidades de desenvolvimento", disse Ekpo, apontando que indústrias nigerianas precisam de energia confiável e acessível. O problema: a Nigéria é palco de instabilidade climática, conflito sectário e roubo de óleo em dutos, o que reduz produção e exportação. Se a Nigéria falhar em expandir exportação de gás, o mercado global aperta, preços sobem para quem importa (Brasil incluso).
Esses três cenários compartilham um traço invisível: decisões tomadas longe dos holofotes afetam fluxos globais de energia, refugiados e investimento. Quando o Sudão implode, pessoas fogem e vizinhos ficam sobrecarregados, forçando soluções desesperadas como deportações ilegais. Quando a Nigéria debate seu modelo energético com guerrilha nos campos petrolíferos, a oferta oscila. E quando minorias perseguidas não têm saída legal, a instabilidade regional aumenta.
Por que importa: o Brasil importa gás natural para usinas termoelétricas e indústrias. Parte desse gás vem de fornecedores africanos e da Ásia (que negocia com a Nigéria). Conflitos no Sudão, crises humanitárias na Malásia e incerteza na produção nigeriana elevam preços globais de energia, que repercutem na conta de luz do consumidor brasileiro e no custo de combustível. Além disso, deslocamentos em massa no Sudão e bloqueios humanitários criam pressão por asilo que eventualmente chega às fronteiras de países em desenvolvimento, incluindo Brasil. O que parece distante é, na verdade, vizinhos.
