Washington negou visto ao general Abdel Fattah al-Burhan, líder da junta militar sudanesa, e o recado foi claro: cumpra o cessar-fogo que estamos negociando. A resposta veio ainda mais clara: al-Burhan ignorou a pressão americana e manteve a guerra civil em curso. O episódio revela que o conflito no Sudão não é apenas sobre poder interno, é também sobre quem controla o Mar Vermelho, uma das rotas comerciais mais críticas do planeta.
A guerra no Sudão começou em abril de 2023, quando al-Burhan e seu rival Mohamed Hamdan Dagalo (conhecido como "Hemedti") desafiaram um ao outro pela supremacia. Desde então, morreram dezenas de milhares de pessoas e 10 milhões foram deslocadas. Washington tentou diversas vezes negociar um acordo de paz, oferecendo pressão diplomática e ameaças de sanções. O visto negado a al-Burhan foi exatamente isso: uma alavanca para forçá-lo à mesa de negociações. Mas funcionou ao contrário.
O general sudanês respondeu à sanção ignorando-a. Isso não é rebeldia simples, é um sinal de que al-Burhan acredita poder contar com apoio alternativo. Fontes apontam que ele tem respaldo de potências regionais (Egito, Rússia e nações do Golfo) interessadas em influência sudanesa. E há uma razão: quem controla o Sudão controla, em grande parte, o Mar Vermelho, estreito por onde passa 12% do comércio marítimo global e que conecta a Europa à Ásia.
A importância da rota é tão grande que os houthis, grupo miliciano iemenita aliado ao Irã, vêm atacando navios ali desde 2023 para pressionar Israel sobre Gaza. As potências ocidentais reagem enviando navios de guerra. A China observa de perto. Quem governar o Sudão terá voz, e talvez poder de veto, sobre esse corredor. Por isso Washington quer ordem no Sudão; por isso Rússia e Egito querem manter al-Burhan forte.
O impasse atual é sintoma de uma verdade incômoda para os americanos: não é fácil pressionar um general que tem outras opções de apoio. Al-Burhan pode ter calculado que perder o visto americano custa menos do que aceitar um cessar-fogo que o enfraqueceria diante de Hemedti. Enquanto isso, a guerra segue, refugiados pioram sua situação e o caos no Sudão afeta a navegação no Mar Vermelho.
Por que importa: o Brasil importa petróleo e exporta commodities por rotas globais. Qualquer desestabilização no Mar Vermelho encarece o frete que você paga na bomba e no supermercado. Um Sudão em guerra e um Mar Vermelho hostil significam mais custos para empresas brasileiras que vendem açúcar, café e soja, custos que acabam nas contas de quem compra. Além disso, a recusa de al-Burhan em obedecer Washington mostra que o poder americano tem limites; isso reconfigura quem tem voz nas negociações sobre ordem global, questão que afeta desde investimentos em infraestrutura brasileira até a forma como o Brasil se posiciona diplomaticamente.
