O governo da primeira-ministra Sanae Takaichi reabriu oficialmente o debate sobre os três princípios não nucleares do Japão, que há quase seis décadas comprometem o país a não produzir, não possuir e não permitir armas atômicas em território nacional. A revisão acontece enquanto Tóquio prepara uma nova Estratégia de Segurança Nacional, prevista para o fim de 2026.
Os princípios foram anunciados em 1967 pelo então primeiro-ministro Eisaku Sato e desde então foram reafirmados diversas vezes pelo parlamento japonês. A fórmula é simples: o Japão não fabrica bombas atômicas, não as armazena e não permite que potências nucleares as depositem em seu solo. Durante décadas, essas regras funcionaram como coluna vertebral da política de defesa japonesa, junto ao guarda-chuva militar oferecido pelos Estados Unidos.
Agora, o que antes parecia intocável virou tema de disputa. Para alguns políticos e analistas japoneses, os princípios são um "kokuze", ou seja, um princípio fundacional do Estado, algo tão sagrado quanto a Constituição. Para outros, são apenas uma diretriz política, que o governo pode alterar quando a conjuntura mudar. Essa diferença de interpretação é o coração do debate que Takaichi decidiu colocar na mesa.
O pano de fundo é a crescente incerteza sobre a confiabilidade das garantias americanas de segurança no Pacífico. A China amplia sua presença militar no Mar do Sul da China e no entorno de Taiwan, a Coreia do Norte segue testando mísseis e os próprios Estados Unidos, sob diferentes governos, vêm sinalizando que aliados precisam arcar com maior parte da própria defesa. Para o Japão, abrir o debate nuclear é uma forma de sinalizar que Tóquio está disposta a repensar sua postura caso o escudo americano perca credibilidade.
A revisão não significa que o Japão vá construir bombas amanhã. Mas o simples fato de um governo japonês colocar os princípios não nucleares em discussão é um divisor de águas na geopolítica asiática. Países como Coreia do Sul e Austrália acompanham de perto, porque qualquer sinal de nuclearização japonesa pode desencadear uma corrida armamentista regional com consequências imprevisíveis.
Por que importa: O Japão é o terceiro maior comprador de petróleo do mundo e um dos maiores importadores de gás natural liquefeito. Qualquer escalada de tensão militar no Pacífico tende a espremer as rotas de comércio e empurrar para cima os preços de energia que o Brasil também importa. Além disso, uma corrida armamentista na Ásia pode desviar recursos globais de investimento e pressionar o câmbio e a inflação por aqui. O debate nuclear japonês é remoto só no mapa.
