A inteligência artificial deixou de ser promessa futura para se tornar motor presente da economia mundial. Singapura, cidade-estado no Sudeste Asiático, cresceu 5,4% entre julho e setembro deste ano puxada por uma onda de investimentos em IA. No mesmo mês, as gigantes Meta e Microsoft anunciaram novos modelos e chips para disputar o mercado, enquanto o Pentágono travou uma disputa judicial com a empresa Anthropic sobre o uso de seus sistemas de IA no setor militar. São duas faces do mesmo fenômeno: a inteligência artificial virou questão de economia e de segurança nacional ao mesmo tempo.
O ritmo de Singapura desacelerou em relação ao trimestre anterior, quando a economia cresceu 6,2%, mas 5,4% ainda coloca a cidade-estado entre as economias avançadas que mais crescem no mundo. O combustível é a indústria de IA: empresas de tecnologia estão instalando data centers, centros de pesquisa e escritórios na ilha, atraindo capital e profissionais de todo o planeta. O fenômeno lembra o que o petróleo fez com economias do Golfo Pérsico décadas atrás, só que agora a matéria-prima é o processamento de dados.
A disputa pelo domínio da tecnologia não para. A Meta, dona do Facebook e do Instagram, lançou os modelos Muse Wonder e Muse Full, afirmando que superam sistemas da OpenAI e da Anthropic. A Microsoft, por sua vez, apresentou o chip Maia 300, projetado para rodar cargas de trabalho de IA em escala massiva, com implantação prevista a partir do ano que vem em data centers de múltiplos gigawatts. A escalada mostra que a corrida não é só por software: o hardware que sustenta esses sistemas virou fronteira estratégica.
Do outro lado da mesma equação, a inteligência artificial se tornou motivo de tensão com o governo americano. A Anthropic pediu a um tribunal federal em Washington que reanalise seu recurso contra uma decisão do Pentágono de incluir seus modelos de IA numa lista negra do setor de defesa. O caso mostra como o governo dos Estados Unidos começa a tratar a tecnologia como ativo estratégico, controlando quais empresas podem fornecer inteligência artificial para uso militar. O controle de quem tem acesso a quê, nesse mercado, deixa de ser decisão de empresa e passa a ser decisão de Estado.
O padrão é claro. A IA já move bilhões de dólares, emprega gente e puxa o PIB de países inteiros, como Singapura demonstra. Mas, ao mesmo tempo, virou ativo geopolítico disputado entre corporações e monitorado por governos que veem na tecnologia uma questão de poder. Quem liderar essa corrida terá vantagem econômica e militar nas próximas décadas.
Por que importa: O Brasil depende cada vez mais de chips e de infraestrutura de IA importados. Se os maiores players do setor estão concentrados nos Estados Unidos e na Ásia, qualquer restrição de exportação ou mudança nas regras de segurança nacional americana pode afetar o acesso do país a essa tecnologia. Além disso, a valorização dos ativos ligados à IA atrai dólares para essas regiões, o que influencia o câmbio, pressiona a inflação e encarece produtos no bolso do brasileiro.
