A eleição israelense que se aproxima é a primeira desde o ataque do Hamas em 7 de outubro, e o esperado embate entre governo e oposição sobre a condução da guerra em Gaza perdeu o centro do palco. No lugar dele, avançou um conflito mais antigo e mais difícil de resolver: o alistamento dos judeus ultraortodoxos. O debate sobre forçar essa comunidade a servir no exército virou o campo de batalha principal da campanha, e expõe rachaduras na sociedade israelense que nenhuma vitória militar resolve.
O tema é antigo, mas ganhou peso novo com a guerra. Os judeus ultraortodoxos, comunidade religiosa de forte crescimento demográfico, obtiveram ao longo das décadas isenções e adiamentos que lhes permitem estudar em seminários em vez de servir nas forças de defesa de Israel, o exército do país. Esses arranjos sempre geraram reclamação de setores laicos, que veem a isenção como um privilégio que repassa o fardo da segurança a menos gente. A guerra em Gaza, que consumiu reservistas por meses, jogou essa conta na rua: parte da opinião pública e de partidos seculares passou a cobrar o fim das exceções, enquanto os partidos ultraortodoxos, aliados históricos de governos, tratam o alistamento como ameaça à própria forma de vida da comunidade.
É por isso que a eleição não se resume a julgar o governo pelo 7 de outubro e pela campanha em Gaza. Ela funciona como um termômetro de uma divisão que atravessa Israel há gerações, entre um país religioso e um país laico, entre quem carrega o serviço militar e quem vive fora dele. Analistas ouvidos em fórum do Washington Institute, instituto de estudos com sede em Washington, discutiram justamente os riscos dessa eleição, a primeira desde os ataques, em meio ainda a um cenário de guerra aberto com o Irã iniciado em 2026, além do conflito em Gaza. O encontro reuniu especialistas israelenses para mapear o que está em jogo, e o diagnóstico comum foi o de que a urna israelense vai medir fissuras internas tanto quanto resultados de batalha.
A aritmética parlamentar torna o tema decisivo. Partidos ultraortodoxos costumam entrar em coalizões de governo ao preço de manter as isenções de alistamento. Se a pressão social e eleitoral empurrar partidos seculares a recusar esse acordo, o próximo governo terá de decidir entre legislar contra a comunidade religiosa e abrir mão de aliados para formar maioria. Nenhum dos caminhos é indolor: mexer com o alistamento ameaça quebrar a base religiosa de coalizões, e mantê-lo alimenta a sensação, entre muitos israelenses, de que um peso nacional é distribuído de forma desigual.
A guerra acelerou o choque, mas não o criou. Israel convive com essa tensão desde a fundação do Estado, quando as isenções foram concedidas a um grupo pequeno de estudiosos e acabaram virando regra para uma comunidade inteira. O crescimento demográfico dos ultraortodoxos, bem acima da média nacional, transformou o que era uma exceção num ponto de desequilíbrio cada vez mais evidente. Para as forças de defesa, a pergunta prática é simples: de onde virão os soldados para uma guerra longa? Para a política, a pergunta é mais dura: que Israel quer a população depois da guerra?
Por que importa: o resultado da eleição vai definir não só quem governa Israel, mas qual contrato social sustenta o país depois de mais de um ano de guerra. Para o Brasil, a ponte é direta ainda que geograficamente distante: qualquer escalada nova no Oriente Médio, com guerra em Gaza e conflito aberto com o Irã, mexe com o preço do petróleo e das rotas marítimas de carga, e esses choques chegam ao bolso brasileiro na bomba de combustível e no supermercado. Um governo israelense mais estável reduz parte desse ruído; um período de disputa interna prolongada mantém a região e os mercados em alerta.
