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Japão reabre o debate nuclear e enfraquece a promessa feita em 1967

INDO-PACÍFICO
Japão reabre o debate nuclear e enfraquece a promessa feita em 1967

O governo da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, está preparando uma nova Estratégia de Segurança Nacional, prevista para o fim de 2026, e já o trabalho de redigir esse documento reacendeu no país o debate sobre os três princípios não nucleares. É a renúncia à bomba, anunciada em 1967, que volta a ser tratada como questão em aberto, e não como letra morta da política externa japonesa.

Os três princípios significam que o Japão não fabrica armas nucleares, não as possui e não permite que elas entrem em seu território. O primeiro-ministro da época, Eisaku Sato, anunciou a fórmula em 1967, quando o mundo vivia sob a Guerra Fria e o Japão reconstruía sua imagem como potência pacífica depois da derrota na Segunda Guerra. A promessa virou a base da defesa japonesa e explica por que o país, mesmo sendo avançado o suficiente para dominar a tecnologia nuclear civil, nunca construiu a arma.

O que mudou agora é a posição do próprio documento dentro do Estado japonês. Parte dos especialistas vê os três princípios como princípio fundamental do país, algo que governo nenhum pode mexer. Outros dizem que eles são apenas uma diretriz de política, o que abriria espaço para o governo mudá-los por conta própria. Essa disputa de interpretação é o coração do debate: se a regra for princípio maior, a Estratégia de Segurança Nacional de Takaichi terá de mantê-la; se for diretriz, o texto poderá repensá-la.

O timing não é por acaso. O Japão discute isso no meio de uma corrida armamentista na Ásia, em que vizinhos ampliam arsenais e disputas territoriais no mar da China Oriental e no Estreito de Taiwan mantêm a região no polvoroso. Um país que vive sob o guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos e convive com vizinhos nucleares passa a pesar de outro jeito o custo de manter uma proibição que, sozinha, não desarma ninguém.

O desfecho deve aparecer no texto que sair no fim de 2026. Se o governo tratar os três princípios como diretriz flexível, será um sinal claro de que a segurança japonesa está sendo reescrita para um mundo mais armado. Se mantiver a fórmula de 1967, o Japão reafirma que a renúncia continua valendo, mas precisará explicar como ela convive com uma vizinhança cada vez mais equipada.

Por que importa: O Japão é um dos grandes compradores de soja e minério de ferro do Brasil, e é também um país que ensina ao mundo o que acontece quando a energia nuclear vira arma. Uma regra nuclear flexível na Ásia tende a elevar gastos militares na região, o que mexe com o preço das commodities e do dólar, duas coisas que chegam direto ao bolso do brasileiro, do preço da carne ao da bomba de gasolina. O tema também ressurge em casa: o Brasil tem seu próprio programa nuclear civil em Angra e um submarino de propulsão nuclear em desenvolvimento, e a discussão japonesa mostra como uma regra de renúncia pesa na hora de decidir até onde um país quer ir.

Fontes