Olh no Mundo
Geopolítica & Economia
O Essencial de Hoje +++
Brent em US$ 112.33/bbl·Brent em US$ 112.33/bbl·
Oriente Médio·3 min de leitura

Israel vota sob suspeita: eleições de terça expõem democracia em erosão

ORIENTE MÉDIO
Israel vota sob suspeita: eleições de terça expõem democracia em erosão

Israel vai às urnas nesta terça-feira, 27 de outubro de 2026, em uma eleição que acontece sob uma dúvida sem precedentes no país: se o Estado judeu ainda pode ser chamado de democracia. É o que argumentam os analistas Oded Haklai e Andrew O'Donohue, do Carnegie Endowment, principal instituto de estudos internacionais dos Estados Unidos. Em artigo publicado em outubro, os dois pesquisadores defendem que o governo de Benjamin Netanyahu transformou Israel em um regime de autoritarismo competitivo, categoria usada por cientistas políticos para descrever países que mantêm eleições e partidos, mas em que o governo usa o Estado para neutralizar adversários e restringir liberdades.

A tese não é que as eleições foram canceladas ou que a oposição foi banida. O autoritarismo competitivo é mais sutil: o jogo eleitoral continua existindo, mas o campo de jogo está inclinado. Haklai e O'Donohue apontam três indicadores centrais para o diagnóstico, segundo o resumo do próprio Carnegie. O primeiro é o cerceamento do espaço da oposição e da sociedade civil. O segundo é o uso das instituições do Estado, como a polícia, o Ministério da Justiça e os tribunais, como ferramentas políticas em vez de árbitros neutros. O terceiro é o enfraquecimento dos contrapesos que, em uma democracia plena, impedem que qualquer líder acumule poder demais.

O contexto ajuda a entender por que o debate pegou fogo agora. Netanyahu governa o país há quase duas décadas, alternando períodos no poder com interrupções, e chegou à atual fase com processos penais pendentes contra ele, acusações de corrupção que ele nega. Desde 2023, Israel viveu também uma crisa institucional aberta, com o governo tentando reduzir o poder da Suprema Corte e parte da população e dos reservistas do exército reagindo com protestos e recusas de servir. A guerra iniciada pelo ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou cerca de 1.200 pessoas em Israel e levou ao confronto em Gaza, prolongou o clima de emergência que tantas vezes beneficia líderes no poder.

A eleição de terça, portanto, é ao mesmo tempo sintoma e teste dessa erosão. É sintoma porque só se chegou aqui porque instituições foram gradualmente corroídas ao longo de anos de batalhas judiciais, políticas e culturais. É teste porque, justamente por manterem eleições, os israelenses ainda têm um mecanismo formal para reagir. Haklai e O'Donohue encaram a votação como a melhor chance de interromper o retrocesso antes que o deslizamento autoritário se consolide de vez, com consequências diretas para a estabilidade do Oriente Médio.

O peso de Israel no cenário internacional é o que transforma uma disputa doméstica em problema global. O país é o principal aliado militar dos Estados Unidos na região e recebe bilhões de dólares americanos em auxílio anual. Um Israel com instituições enfraquecidas mexe na capacidade dos Estados Unidos de pressionar parceiros e adversários, e afeta a credibilidade do discurso ocidental sobre democracia e direitos humanos. Para vizinhos como Egito, Jordânia, Arábia Saudita e os próprios palestinos, um Israel mais autoritário internamente tende a significar uma política externa menos previsível.

Por que importa: O Brasil não tem comércio relevante com Israel, mas o preço do petróleo e do gás no mercado internacional reage a qualquer escalada no Oriente Médio, e o Brasil importa gás. Se a instabilidade israelense se combinar com tensões com o Irã ou com novas rodadas de guerra em Gaza e no Líbano, a bolsa de valores de São Paulo, o câmbio e a inflação de alimentos sentem. Mais do que isso, a eleição de terça é um ensaio geral de algo que preocupa democracias inteiras: como um líder eleito pode descarrilar um sistema por dentro, usando as próprias regras do jogo. A democracia israelense está sendo testada às vésperas do voto, e o resultado será lido de Brasília a Washington.

Fontes