A OTAN, aliança militar ocidental liderada pelos EUA, estabeleceu na semana passada sua meta de defesa mais ambiciosa em décadas, 3,5% do PIB de cada país-membro. O recado é claro: a Europa não pode mais contar com Washington para bancar sua segurança. Paga ou fica vulnerável.
Até agora, o compromisso era simbólico: 2% do PIB. Muitos países não batiam nem isso. Mas a Guerra da Ucrânia e o ressurgimento agressivo da Rússia forçaram uma conta de realidade. Os europeus descobriram que defesa própria custa caro, muito caro. A nova meta de 3,5% significa que países como França, Alemanha e Polônia vão redirecionar dezenas de bilhões de euros anuais das escolas, hospitais e previdência para tanques, mísseis e sistemas de defesa aérea.
Isso marca o fim de um ciclo que durou 35 anos. Desde o colapso da União Soviética em 1991, a Europa respirou aliviada. Os EUA garantiam proteção de graça, em troca de influência política e mercados abertos. Enquanto isso, os europeus investiam em bem-estar social, saúde universal, educação pública, pensões generosas. O modelo funcionou enquanto não havia ameaça existencial à porta.
Agora há. A invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022 virou tudo de pernas para o ar. A Rússia tem arsenal nuclear, milhões de soldados e demonstrou disposição de usar força bruta. Os europeus perceberam que a garantia americana tem limite, e que, se Moscou atacar um membro da OTAN, os EUA podem estar distraídos com a China ou com política doméstica. Resultado: cada país precisa estar pronto para se defender sozinho.
Polônia, Finlândia e os países bálticos já correm para aumentar gastos. A Alemanha, maior economia europeia, está transformando seu orçamento: bilhões saem de investimento social e entram em defesa. França e Reino Unido vão no mesmo caminho. Todos enfrentarão escolhas duras, cortar benefícios sociais, adiar infraestrutura, apertar o cinto em outros setores.
A conta final é brutal. Um país europeu médio com PIB de 1 trilhão de euros vai passar de 20 bilhões anuais em defesa para 35 bilhões. Multiplicado pela UE inteira, estamos falando de centenas de bilhões de euros redirecionados em poucos anos.
Por que importa: o Brasil não está na OTAN, mas vive em um mundo reordenado por essa decisão. Quando a Europa gasta trilhões em defesa, reduz consumo e investimento, e isso afeta comércio global, preços de commodities e fluxo de capital internacional. A Rússia, sancionada pelo Ocidente, busca novos parceiros comerciais e de investimento. China e Índia ganham espaço geopolítico enquanto a Europa se fecha. Tudo isso impacta as negociações comerciais do Brasil, a demanda por nossas exportações e o acesso a tecnologia e investimento externo. Um mundo mais militarizado e fragmentado é um mundo menos previsível para quem vende commodities, e é disso que o Brasil vive.
