Enquanto Estados Unidos e China disputam o controle global da inteligência artificial, América Latina acorda para o risco de se tornar eterna compradora de tecnologia que não domina. A Argentina acaba de anunciar um plano nacional de IA com investimento de 2 bilhões de dólares em cinco anos, com o objetivo de transformar o país em polo da área na região. O governo de Javier Milei aposta em dois setores onde o país já tem força: mineração e serviços financeiros.
A estratégia argentina mira um espaço real. Hoje, quem desenvolve os modelos de inteligência artificial básicos concentra poder, patentes e lucro. Quem apenas usa fica na posição de cliente dependente, pagando licenças e ajustando ferramentas criadas em outros lugares. O plano de Milei quer mudar essa dinâmica treinando profissionais e atraindo investimentos para que a tecnologia seja construída dentro do país, não apenas importada.
O Brasil corre em outra direção, mas com a mesma urgência. Uma pesquisa do MIT Technology Review Brasil revela que 67% das empresas brasileiras já usam inteligência artificial generativa, com adoção crescendo 300% em dois anos. Os principais usos são atendimento ao cliente, marketing e análise de dados. O dado mostra que a tecnologia já faz parte do dia a dia produtivo do país, mas predominantemente como consumidora de ferramentas estrangeiras.
Usar inteligência artificial é relativamente fácil e barato. Desenvolvê-la é caro, demorado e exige infraestrutura robusta de processamento de dados. Sem uma política industrial clara nessa área, países como Brasil e Argentina correm o risco de repetir um padrão antigo da economia latino-americana: exportar matéria-prima barata e importar tecnologia cara. A diferença é que, desta vez, a matéria-prima são os dados e o produto final é a inteligência que processa esses dados.
A janela para mudar esse rumo está se fechando. Modelos de inteligência artificial exigem volume colossal de investimento em chips e energia, barreiras que poucas empresas no mundo conseguem transpor. Competir de igual para igual com os gigantes pode ser irreal, mas criar nichos regionais de excelência ainda é possível. A corrida agora é para não chegar atrasados demais a um jogo que já redefine quem manda no mundo.
Por que importa: o Brasil é um dos maiores mercados digitais do planeta e suas empresas estão adotando inteligência artificial em ritmo acelerado. Se o país não desenvolver capacidade própria de criação e treinamento desses modelos, vai apenas pagar pedágio para a tecnologia estrangeira eternamente. Isso significa menos empregos qualificados, menos inovação nacional e mais pressão sobre o dólar, já que cada assinatura e cada licença de IA enviada ao exterior drena moeda forte da economia brasileira.
