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OTAN quer dobrar gastos com defesa enquanto ameaças se multiplicam

GEOPOLÍTICA
OTAN quer dobrar gastos com defesa enquanto ameaças se multiplicam

A OTAN, aliança militar ocidental liderada pelos EUA, discute em Washington elevar a meta de gastos militares de seus países-membros de 2% para 5% do produto interno bruto (PIB), um salto histórico que reflete o nervo à flor da pele no Ocidente. Alemanha e Polônia pressionam pela aprovação, mas nações do sul da Europa resistem ao peso do orçamento. A urgência tem rosto: a Coreia do Norte acaba de lançar mais um míssil balístico intercontinental, alcançando 6.000 quilômetros de altitude, um sinal de que o cerco militar global se aperta.

O contexto explica a pressa. Há pouco mais de dois anos, a invasão da Ucrânia pela Rússia virou a segurança europeia de cabeça para baixo. Países que dormiam em paz relativa acordaram com tanques russos batendo na porta. A resposta foi imediata: rearmamento. Mas agora não se trata mais de reagir à Rússia. O teste coreano e a crescente tensão no Indo-Pacífico ampliam o tabuleiro. Os EUA e aliados percebem que enfrentam uma geometria de ameaças: Russia na Europa, China na Ásia, Coreia do Norte testando tecnologia nuclear. Daí a proposta dos 5%.

Alemanha e Polônia, vizinhas da Rússia, lideram a pressão interna. Para elas, 5% não é luxo, é sobrevivência. Berlim já reviu sua postura histórica de pacifismo relativo. O país que prometeu nunca mais militarizar sua economia agora autoriza gastos massivos em armas e pessoal. A Polônia vai além: oferece-se como porta de entrada e retaguarda para tropas ocidentais. Mas no sul, Grécia, Espanha e Portugal encaram a conta com ceticismo. Cinco por cento do PIB é dinheiro que sai da saúde, educação, infraestrutura. Para nações que não têm fronteira direta com a Rússia, o risco parece distante, e o custo, próximo demais.

O lançamento coreano chegou como acelerador dessa tensão. Japão e Coreia do Sul convocaram reunião de emergência. O míssil alcançou altitude recorde, sinalizando progresso técnico. Isso não é um problema apenas regional: reforça a tese ocidental de que o mundo enfrenta uma competição estratégica de novo tipo, onde potências rivalizam de forma simultânea em múltiplas regiões. A OTAN, pensada para defender a Europa, vê-se pressionada a pensar globalmente. Daí o apetite por mais recursos.

A disputa sobre os 5% deve avançar na cúpula. Aprovada ou não como meta obrigatória, a tendência é que aumentos militares saiam do papel: Alemanha, Polônia e países bálticos já se comprometeram. França quer manter sua autonomia. E os países do sul negociam flexibilidade, talvez carregar gastos em segurança cibernética ou defesa costeira para perto da meta, sem atingir 5% em armamento clássico.

Por que importa: A militarização acelerada da Europa mexe direto na carteira e no comércio brasileiro. Quando o Ocidente prioriza armas, reduz investimentos em infraestrutura, inovação e comércio global, setores onde o Brasil quer crescer. Além disso, corridas armamentistas enviesam a geopolítica: tensões europeias e asiáticas afastam capital e atenção de projetos no sul global. O Brasil também enfrente pressão indireta: tecnologias de ponta usadas em defesa ficam mais caras e restritas por controle de exportação. Materiais de duplo uso, como semicondutores e componentes eletrônicos, viram moeda de estratégia militar, e o país sente o preço.

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