A Índia acaba de virar a quarta maior economia do mundo por PIB nominal, superando o Japão. No mesmo mês, a China anuncia um pacote de estímulo fiscal de 2 trilhões de iuans para conter sua própria desaceleração. Enquanto Nova Déli acelera com crescimento de 7,1% ao ano, Pequim investe em infraestrutura e consumo interno para não perder terreno. O resultado é um reposicionamento tácito de forças na Ásia: a Índia sai da sombra do gigante chinês, mas Pequim ainda tenta manter o motor ligado.
A ascensão indiana não é novidade de repente. O país já vinha crescendo mais rápido que a China há alguns anos, mas atingir o quarto lugar no ranking nominal é um marco simbólico. O motor dessa expansão vem de dois cilindros: tecnologia (com empresas em software e serviços digitais ganhando musculatura global) e manufatura (fábricas expandindo conforme empresas multinacionais diversificam sua produção para fora da China). Uma população jovem, com mais de 1,4 bilhão de pessoas, alimenta esse dinamismo. Enquanto isso, o Japão, terceira maior economia há décadas, segue com crescimento tímido e envelhecimento da população.
Pequim não fica passivo vendo sua posição relativa ruir. O pacote de 2 trilhões de iuans (cerca de 280 bilhões de dólares) é a resposta a sinais de desaceleração que preocupam o governo central: consumo doméstico fraco, setor imobiliário em dificuldades, desemprego jovem em patamares altos. O foco em infraestrutura pode parecer familiar, mas agora a prioridade mudou. Pequim também mira consumo interno, sinalizando que entendeu que o modelo de exportação sem frear não sustenta mais. Os mercados responderam bem: Hong Kong subiu 3,2% quando o anúncio saiu.
O que muda na prática? A Índia emerge como um polo econômico independente na Ásia, menos amarrada ao entorno chinês e mais conectada aos EUA, à Europa e aos parceiros do Indo-Pacífico. Isso diversifica o poder econômico da região. Mas Pequim segue sendo a maior economia ainda (classe A, enquanto Índia é classe B em tamanho). A questão agora é se o estímulo chinês consegue dar tração suficiente ou se a desaceleração vai ser mais visceral. Uma China fraca muda dinâmicas de segurança regional, inflação global e até o jogo geopolítico com os EUA.
Por que importa: Para o Brasil, esses movimentos na Ásia mexem no seu bolso. Uma Índia mais forte e com consumo interno aquecido demanda mais commodities, desde soja até minério de ferro e cobre. Uma China desacelerada reduz essa demanda, pressionando preços e receita de exportação. Ao mesmo tempo, a diversificação econômica asiática cria novos parceiros comerciais para o Brasil explorar. O dólar, a inflação doméstica e o preço das commodities no mercado global são sensíveis a esses movimentos. Quanto mais estável e crescente for a economia asiática, melhor para os exportadores brasileiros.
