A Organização das Nações Unidas declarou o Sudão como a maior crise humanitária do planeta. O conflito civil entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e os paramilitares das Forças de Apoio Rápido (RSF) colocou 25 milhões de pessoas, em um país de 45 milhões de habitantes no nordeste africano, em risco iminente de fome. A ajuda internacional chega a apenas 30% do necessário.
O Sudão está em guerra civil desde abril de 2023, quando as duas principais facções do poder começaram uma disputa aberta pelo controle do Estado. Nenhum dos dois lados consegue governar. Ambos lutam por território e recursos naturais, enquanto a população fica presa no meio. As cidades foram destruídas, os campos não são cultivados, e quem tinha algum dinheiro fugiu para o exterior.
A tragédia não recebe atenção internacional porque ninguém depende muito do Sudão. O país não exporta petróleo em volume relevante, não controla recurso estratégico que importador nenhum quer muito, e seus conflitos não envolvem diretamente as grandes potências ocidentais. Por isso, o Sudão desapareceu dos jornais do mundo desenvolvido. Mas o vácuo deixado pela indiferença ocidental não ficou vazio por muito tempo: Rússia e Emirados Árabes Unidos viram oportunidade e começaram a influenciar as facções sudanesas, reforçando a instabilidade.
A desestabilização do Sudão tem efeito dominó na região. O país fica perto do Estreito de Bab el-Mandebe, uma das rotas de navios mais importantes do mundo, que conecta o Oceano Índico ao Mar Vermelho e daí à Europa. Navios que transportam produtos de toda a Ásia para o Brasil passam por lá. Quando a região esquenta e as rotas de navegação ficam perigosas, as transportadoras precisam desviar, o trajeto fica mais longo, o frete sobe. Isso encarece tudo que vem importado para o Brasil, desde peças de eletrônico até alimentos.
A ajuda humanitária no Sudão é pífia comparada à escala do desastre. Organizações internacionais alertam que sem intervenção urgente, a fome matará dezenas de milhares de pessoas nos próximos meses. Mas os donos de dinheiro do mundo estão focados em outras crises: a guerra na Ucrânia, a tensão entre EUA e China, o Oriente Médio. O Sudão fica para depois. Enquanto isso, o caos no território aprofunda a instabilidade regional e torna mais provável que as rotas comerciais do Mar Vermelho sofram interrupções crescentes.
Por que importa: a crise do Sudão não é apenas uma tragédia distante. A desestabilização do país pressiona as rotas de navegação que trazem bens consumidos no Brasil, fazendo o frete mais caro e a inflação subir. Quanto mais tempo o Sudão queimar sem atenção internacional, mais a instabilidade se alastrava na região, e mais altos ficam os custos para quem compra no supermercado brasileiro.
