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Duas crises, uma só comunidade internacional: Gaza e Sudão competem por respostas que não chegam

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Duas crises, uma só comunidade internacional: Gaza e Sudão competem por respostas que não chegam

A comunidade internacional intensifica a pressão por um cessar-fogo permanente em Gaza, mas enquanto diplomatas negociam na região, o Sudão enfrenta uma catástrofe humanitária ainda maior e quase invisível: mais de 10 milhões de pessoas deslocadas de suas casas em menos de dois anos de guerra. As duas tragédias simultâneas expõem os limites da capacidade de resposta global e forçam escolhas difíceis sobre onde concentrar recursos e atenção.

A guerra entre o exército sudanês, liderado pelo general Abdel Fattah al-Burhan, e a milícia paramilitar Forças de Apoio Rápido começou em abril de 2023 e se transformou numa das maiores crises de deslocamento do século. A ONU alertou que a fome já ronda o país, com risco de generalização. Enquanto isso, em Gaza, a pressão diplomática cresce com negociações que envolvem mediadores como Egito, Catar e EUA, num esforço para frear os confrontos entre Israel e Hamas.

O número de deslocados no Sudão ultrapassa agora os refugiados de qualquer outro conflito ativo no mundo. Segundo o alerta da ONU, mais de dois terços dessa população enfrenta insegurança alimentar aguda. No mesmo período, Gaza concentra a atenção mediática global, gerando manifestações nas ruas de cidades ocidentais e marcando agendas políticas de governos. A disparidade de cobertura revela uma realidade incômoda: nem toda crise humanitária recebe o mesmo peso na arena internacional.

Os efeitos dessa divisão de recursos são mensuráveis. Agências humanitárias reduzem operações no Sudão para redirecionar pessoal e fundos para Gaza. Doadores bilaterais também priorizam negociações que possam render um acordo de paz visível, deixando o Sudão numa situação de abandono relativo. A ONU pediu 2,6 bilhões de dólares para a resposta humanitária no Sudão; recebeu menos de 20% do total até agora.

O Sudão permanece fragmentado entre duas forças que não dialogam, e sem mediadores com peso político suficiente para forçar uma solução. Gaza, apesar da violência contínua, segue sendo palco de negociações diplomáticas ativas. Essa assimetria não significa que uma crise importa mais que a outra, mas que a política internacional privilegia conflitos onde há atores dispostos a conversar.

Por que importa: O Sudão e a instabilidade do Corno da África afetam diretamente as rotas comerciais que ligam a Ásia à Europa. Quando conflitos paralisam portos e fecham passagens estratégicas como o Estreito de Bab al-Mandebe (porta de entrada do Mar Vermelho), os fretes internacionais disparam. Esse aumento nos custos de transporte chega rapidamente ao Brasil sob a forma de produtos importados mais caros, alimentos com inflação maior e combustíveis em alta. Além disso, a instabilidade no Sudão afeta a capacidade de exportação de cereais da região, pressionando também a oferta global e os preços que os brasileiros pagam na mesa.

Fontes