Os houthis, grupo armado iemenita apoiado pelo Irã, transformaram uma das rotas navais mais movimentadas do planeta em zona de risco. Ataques recentes a navios comerciais no Estreito de Bab el-Mandeb, porta de entrada do Mar Vermelho, forçam armadores a desviar cargas por caminhos mais longos e caros, mexendo nos preços que o consumidor paga nas prateleiras.
O Mar Vermelho não é um detalhe no mapa. Por lá passa cerca de 12% do comércio marítimo global, cerca de 25 mil navios por ano. O estreito de Bab el-Mandeb, que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico, é o gargalo crucial: um trecho de apenas 30 quilômetros que encurta a jornada entre Europa e Ásia em semanas. Quando alguém bloqueia ou torna perigoso esse caminho, o mundo inteiro sente.
Os ataques houthi começaram a intensificar-se em resposta à guerra em Gaza e ao apoio militar dos EUA a Israel. O grupo, que integra o eixo de influência iraniana no Oriente Médio, disparou mísseis e drones contra navios mercantes, forçando as companhias a escolherem entre dois caminhos ruins: ou cruzam o Mar Vermelho sob risco de ataque, ou seguem pela rota alternativa, contornando a África pelo Cabo da Boa Esperança. A segunda opção adiciona 10 a 14 dias de viagem e dezenas de milhares de dólares em combustível e operação por navio.
As seguradoras já aumentaram prêmios para embarcações no estreito, e grandes armadores começaram a redirecionar suas frotas. Essa mudança simples tem consequências em cascata: contratos de frete sobem, os custos de importação e exportação aumentam, e essas despesas acabam repassadas ao preço final de produtos que viajam por aquela rota, desde eletrônicos até alimentos.
O contexto geopolítico explica tudo. Os houthis veem a guerra em Gaza como injustiça que exige resposta. Ao atacar navios no Mar Vermelho, ganham relevância global, atraem atenção mediática e constrangem potências ocidentais. O Irã, por sua vez, aumenta sua influência regional sem colocar tropas iranianas no front. É uma estratégia de pressão indireta que funciona porque o Mar Vermelho é insubstituível no comércio moderno.
Por que importa: o Brasil importa equipamentos e componentes que passam por Bab el-Mandeb, além de exportar commodities como celulose e minério de ferro em navios que usam essa rota. A cada semana que um navio demora mais viajando pelo Cabo da Boa Esperança, o custo dessa exportação sobe. Isso afeta a competitividade do produto brasileiro no mercado global e, no médio prazo, o emprego e os preços que chegam ao bolso do brasileiro. Além disso, o encarecimento do frete marítimo pressiona a inflação doméstica, pois muitos produtos que o Brasil consome e que não são produzidos aqui ficam mais caros quando viajam por rotas mais longas.
