China e Índia estão vivendo trajetórias opostas. Pequim enfrenta desaceleração econômica e acaba de anunciar novas medidas emergenciais de estímulo, corte de taxas e injeção de liquidez para conter a crise imobiliária. Enquanto isso, a Índia ultrapassou o Japão e se consolidou como a terceira maior economia do mundo, com crescimento de 7% projetado para 2025. Dois movimentos sísmicos que redesenham o peso geopolítico da Ásia e o poder de compra global.
A China por décadas foi o motor econômico da região. Crescimento de dois dígitos, fábricas que abasteciam o mundo, consumo interno em expansão. Mas os problemas se acumularam: setor imobiliário em crise (a imobiliária Evergrande desabou), população envelhecida, consumidores menos dispostos a gastar. O Produto Interno Bruto cresceu 5,2% em 2024, bem abaixo da média histórica. Por isso o governo chinês pulou para o kit de emergência: cortes de taxa de juros, afrouxamento de regras para compra de imóveis, promessas de gastos públicos. É o reconhecimento de que o modelo anterior não funciona mais.
Enquanto Pequim freia, Nova Délhi dispara. A economia indiana cresceu impulsionada por consumo interno forte, investimentos em infraestrutura e uma população jovem que consome. O PIB indiano agora supera o do Japão, a segunda maior economia asiática há décadas. A Índia entrou em um ciclo virtuoso: mais gente empregada, mais renda, mais consumo. As projeções indicam que essa velocidade vai se manter, 7% para 2025 é um ritmo que China não alcança há tempos.
O impacto é estrutural. Durante 40 anos, a Ásia gravitou em torno de Pequim: fornecedores dependiam do mercado chinês, investidores apostavam no crescimento chinês, bancos centrais de vizinhos acompanhavam os movimentos do yuan. Agora a gravidade se redistribui. Empresas começam a diversificar produção para a Índia e outras economias, reduzindo dependência da China. Pequim perde margem de influência econômica justamente quando tenta reafirmar poder geopolítico.
A desaceleração chinesa também mexe no dinamismo dos vizinhos. Vietnã, Tailândia, Coreia do Sul, todos vendem para a China. Se Pequim compra menos, eles vendem menos. É um efeito dominó. A Índia, por sua vez, torna-se um polo de atração: investidores desviam fundos para lá, fornecedores buscam parcerias, grandes potências como Estados Unidos e Japão aprofundam alianças com Nova Délhi como contrapeso à China.
Por que importa: O Brasil exporta commodities para a China há 20 anos, soja, minério de ferro, petróleo. Uma China mais fraca é uma China que consome menos dos nossos produtos e que pode oferecer menos crédito para infraestrutura brasileira. A queda da demanda chinesa mexe no preço de commodities, afeta dólar no bolso e inflação. Ao mesmo tempo, a ascensão da Índia abre oportunidades: é uma economia que ainda precisa de alimentos, energia e minerais. O Brasil pode diversificar parceiros, mas isso exige tempo e articulação comercial que o governo ainda não capitalizou.
