A Coreia do Norte testou um novo míssil balístico após exercícios militares conjuntos dos Estados Unidos e da Coreia do Sul na região. O lançamento é mais um capítulo de um ciclo vicioso: Pyongyang reage a demonstrações de força ocidentais com seus próprios testes, provocando novas ações defensivas de Seul e Washington. Resultado: o Indo-Pacífico virou o teatro de maior volatilidade militar do mundo.
O teste ocorreu poucos dias depois que EUA e Coreia do Sul concluíram operações aéreas que incluíram bombardeiros estratégicos B-1B. Para Pyongyang, treinos desse porte soam como ensaios para uma invasão. A resposta é sempre a mesma: mostrar músculo com um lançamento de míssil, elevando a tensão um degrau acima. Dessa vez, o projétil foi disparado em direção ao Mar do Japão, uma zona estratégica que serve tanto como corredor comercial quanto como campo de prova para armamentos.
O que diferencia este teste de tantos outros é a frequência crescente com que esses ciclos se repetem. Nos últimos dois anos, a Coreia do Norte disparou mais de 100 projéteis de vários tipos. Cada lançamento força Seul a fortalecer suas defesas aéreas e aprofunda a dependência dos EUA como guarda-chuva de segurança. O Japão, que fica na linha de fogo potencial, também acelera seus gastos com defesa em ritmo inédito desde a Segunda Guerra.
A questão que mantém Tóquio e Seul acordados é simples: Pyongyang consegue atacar com precisão o que promete? Os testes mostram progresso incremental. A Coreia do Norte não possui ainda um arsenal tão confiável quanto o dos EUA ou da Rússia, mas está reduzindo essa lacuna. Cada lançamento fornece dados que alimentam centros de pesquisa norte-coreanos espalhados por Pyongyang e pelo interior do país.
Enquanto isso, a China observa de perto. Teoricamente, Pequim é aliada de Pyongyang, mas uma Coreia do Norte com mísseis cada vez mais precisos também é impredizível demais para Pequim controlar. A questão tácita é se Pequim vai pedir freio a Kim Jong-un ou deixar Pyongyang prosseguir como ferramenta de pressão sobre o Ocidente. Até agora, Pequim tem deixado as coisas correrem.
Washington descarta retomar negociações enquanto Pyongyang segue testando. Seul fez o mesmo. O resultado é que não há canais sérios de conversa para desacelerar a espiral. Cada lado aposta que demonstrações de força persuadirão o outro a recuar. Nenhum dos dois dá sinais de estar ceifando.
Por que importa: O Brasil importa semicondutores de alto desempenho de fabricantes sul-coreanos (Samsung, SK Hynix). Qualquer interrupção nas operações em Seul, pela escalada de conflito no Pacífico, impactaria diretamente o abastecimento desses chips em fábricas brasileiras de eletrônicos, telefones e equipamentos automotivos. Além disso, Tóquio e Seul são mercados importantes para exportações de commodities brasileiras. Instabilidade geopolítica naquela região encareceria fretes marítimos e reduziria demanda por produtos brasileiros na região.
