A guerra civil no Sudão deslocou 10 milhões de pessoas, o maior êxodo de refugiados do planeta atualmente. A ONU alertou que a catástrofe humanitária superou todos os conflitos em curso em dimensão, mas continua fora dos holofotes da mídia internacional e sem prioridade nas agendas dos países ricos.
O conflito começou em abril de 2023, quando duas facções militares disputaram o controle do Estado. De um lado, o Exército sudanês. Do outro, as Forças de Apoio Rápido, uma milícia paramilitar que controlava áreas de mineração de ouro. A disputa pelo poder se transformou numa guerra de desgaste que pulverizou a infraestrutura civil do país. Hospitais viraram escombros. Escolas fecharam. Comida desapareceu das prateleiras. Em menos de dois anos, 10 milhões de sudaneses foram arrancados de suas casas, segundo dados das Nações Unidas.
Para dimensionar: esse número é maior que a população de refugiados da Ucrânia (6 milhões) e sírios (5,5 milhões) somadas. "A situação no Sudão representa a maior crise de deslocamento do mundo, com um nível alarmante de fome e doenças", afirmou um porta-voz da ONU em comunicado recente. Apesar da escala, o conflito raramente aparece nas primeiras páginas dos jornais ocidentais. Nenhuma grande potência tem interesse estratégico direto no Sudão como têm na Ucrânia ou no Oriente Médio.
A invisibilidade traz consequências práticas. Organizações humanitárias operam com recursos minguados. O Programa Mundial de Alimentos consegue alimentar apenas uma fração dos necessitados. Surtos de cólera e malária se propagam em campos de refugiados superlotados. Crianças nascem em tendas sem acesso a vacinação. A desnutrição infantil atinge níveis que lembram crises humanitárias dos anos 1980. Sem pressão midiática, os apelos por ajuda internacional não viram prioridade nos orçamentos governamentais.
A fuga em massa criou uma crise regional. O Egito, o Chade e Uganda recebem centenas de milhares de refugiados sudaneses com estruturas de saúde e educação já no limite. A Etiópia e o Quênia enfrentam pressões semelhantes. Países africanos pobres carregam sozinhos um fardo que deveria ser compartilhado globalmente. Mas sem voz política nas Nações Unidas ou na mídia internacional, suas reclamações ecoam em câmaras vazias.
A falta de cobertura também beneficia atores que ganham com o caos. Grupos extremistas recrutam em campos de refugiados. Redes de tráfico de pessoas usam rotas abertas pela anarquia. Mineradores ilegais exploram ouro sudanês enquanto o Estado desaparece. A cada mês sem atenção internacional, as estruturas que poderiam reconstruir o país se deterioram um pouco mais.
Por que importa: O Brasil tem interesse comercial e diplomático no Sudão e em toda a região africana. A instabilidade pode interromper exportações de alimentos e minérios que mexem nos preços globais e afetam a inflação brasileira. Além disso, o Brasil participa de missões humanitárias e de cooperação técnica em África, incluindo projetos de saúde e agricultura. Uma crise humanitária ignorada pelo mundo rico mina a credibilidade de iniciativas brasileiras no continente. Por fim, o colapso do Estado sudanês cria fluxos migratórios que acabam atravessando rotas atlânticas e chegam ao Brasil, junto com histórias de sofrimento que poderiam ser atenuadas com intervenção humanitária mais robusta.
