A ONU confirmou que 2024 foi o ano mais quente já registrado desde que há medições, e o planeta superou pela primeira vez, num ano inteiro, a marca simbólica de 1,5°C de aquecimento acima dos níveis pré-industriais. O dado chega no momento exato em que a diplomacia climática se prepara para a COP30, a conferência anual da ONU sobre clima, que este ano acontece em Belém, no Pará. Cientistas ouvidos pelo jornal britânico The Guardian foram diretos ao classificar o resultado como um alerta para a humanidade.
O número de 1,5°C não foi escolhido por acaso. É o limite que quase 200 países assumiram como meta no Acordo de Paris, de 2015, para evitar os piores efeitos das mudanças climáticas, como ondas de calor extremas, secas prolongadas e elevação acelerada do nível do mar. Uma analogia simples ajuda a entender: o corpo humano suiva febre de 1,5 grau já se sente mal; o planeta, com sua escala gigante, sinaliza estresse em cadeia, de geleiras que derretem a chuvas que mudam de ritmo.
Superar o limite num único ano não significa que a meta de Paris fracassou oficialmente, porque o acordo fala de uma média sustentada ao longo de décadas. Mas dá uma dimensão concreta da velocidade do problema. Em vez de uma projeção abstrata para 2050, o aquecimento virou estatística do ano que acabou de passar.
É esse dado que vira munição em Belém. Como reportou o jornal El País, os países estão se alinhando para exigir metas de transição energética mais duras na COP30, com pressão crescente por compromissos mais rígidos de redução de emissões de gases do efeito estufa. A lógica diplomática é simples: fica difícil argumentar por prazos folgados quando o gráfico da temperatura já cruzou a linha que o mundo prometeu não cruzar.
Para o Brasil, a COP30 em Belém é uma vitrine e um teste ao mesmo tempo. O país sediará a conferência no coração da Amazônia, o bioma mais associado ao debate climático do planeta, e será cobrado por ambição própria: combater o desmatamento e acelerar a substituição de combustíveis fósseis por fontes limpas, área em que o Brasil tem vantagem pela matriz elétrica já majoritariamente renovável.
Por que importa: o clima esquentando afeta diretamente o bolso do brasileiro. Secas e enchentes mais frequentes encarecem comida, porque lavouras como a de soja e a do café dependem de chuva regular, e a inflação de alimentos responde por parcela grande do custo de vida aqui. Além disso, a COP30 em Belém coloca o Brasil no centro das negociações que vão decidir quanto os países ricos vão pagar pela transição energética, dinheiro que pode virar investimento em energia limpa, emprego e infraestrutura dentro do país.
