O Japão vai ampliar os subsídios à TSMC, gigante taiwanesa de semicondutores, e à Rapidus, fabricante nacional em construção, numa aposta bilionária para garantir produção de chips em território japonês. A medida é resposta direta à escalada tecnológica entre Estados Unidos e China, que transformou a cadeia de semicondutores em ativo estratégico. O anúncio foi reportado pelo jornal japonês Nikkei.
O gatilho imediato está do outro lado do mar. A China abriu uma investigação antitruste contra a Nvidia, maior fabricante mundial de chips de inteligência artificial, conforme revelou a Bloomberg. A iniciativa de Pequim vem logo depois de Washington restringir a exportação de chips avançados para a China. Em termos simples: os dois lados estão usando a tecnologia como trava de mão, e cada bloco quer produzir o que precisa sem depender do rival.
O Japão entende que ficar fora dessa disputa é risco demais. Os semicondutores estão em tudo: carro, celular, máquina industrial, equipamento de defesa. Se a oferta travar por causa de um conflito comercial ou militar no Pacífico, uma economia industrial como a japonesa para. Garantir fábricas em casa funciona como um seguro, ainda que caro. É a mesma lógica que levou os Estados Unidos e a Europa a subsidiarem fábricas próprias nos últimos anos.
A TSMC é peça central dessa estratégia. A empresa controla a maior parte da produção mundial dos chips mais avançados, e praticamente tudo sai de Taiwan, ilha que a China reivindica como sua. Qualquer tensão no estreito de Taiwan, por isso, assusta governos e empresas no mundo inteiro. Ter uma fábrica da TSMC operando no Japão diversifica o risco e encurta a distância entre a produção e o principal polo mundial de eletrônica depois da China.
A Rapidus, por sua vez, é a aposta japonesa de voltar ao primeiro time. O país já dominou o mercado de memórias nos anos 1980, antes de perder espaço para Coreia do Sul e Taiwan. Agora, com subsídio público, a empresa tenta desenvolver no Japão a tecnologia de ponta que hoje só um punhado de fabricantes domina. É um projeto de soberania industrial, não de lucro no próximo trimestre.
Por que importa: o Brasil importa praticamente todos os chips que usa, de eletrodoméstico a carro, e não tem fábrica própria. Quando a disputa entre EUA e China aperta a oferta ou engrossa os preços dos semicondutores, o custo chega aqui pela porta dos fundos: produtos mais caros, indústria que depende de peça importada e inovação que fica refém de decisões tomadas a milhares de quilômetros. A briga por chips em Tóquio e Washington é, no fundo, uma disputa por quem manda na economia do século 21, e o Brasil precisa decidir qual será o seu lugar nela.
