O alto o fogo em Gaza completou a primeira semana sem colapsar. O acordo, que estabelece uma trégua de 10 dias, foi costurado com mediação do Egito e do Catar, e a ONU, a organização que reúne praticamente todos os países do mundo, alerta que a crise humanitária na faixa territorial segue severa, com risco real de escalada regional se o entendimento não vingou.
A trégua funciona, até aqui, como teste de confiança entre as partes. Uma pausa de dez dias é pouco para reconstruir qualquer coisa, mas é tempo suficiente para mostrar se os dois lados conseguem se conter. O desafio é que a violência cesse de forma duradoura num território onde a população enfrenta escassez de alimentos, remédios e serviços básicos, cenário que a ONU classifica como humanitariamente crítico.
A mediação de Egito e Catar revela uma mudança importante na forma de resolver conflitos no Oriente Médio. São países vizinhos, com contatos diretos com todas as partes, que conseguem negociar o que potências distantes não alcançam pelo distanciamento. A diplomacia regional deixou de ser coadjuvante e virou peça central: sem o egípcios e os catarianos à mesa, não haveria trégua para falar.
O teste agora é duplo. Primeiro, verificar se a pausa se converte em negociação mais longa, com etapas concretas de retirada e reconstrução. Segundo, e mais urgente, responder à crise humanitária que a ONU aponta: enquanto a população de Gaza não receber ajuda em escala, qualquer acordo corre o risco de ser apenas uma pausa tática, um intervalo antes de nova rodada de violência.
O risco de escalada regional segue sobre a mesa. O conflito em Gaza já mostrou capacidade de contaminar vizinhos, e a ONU inclui esse cenário entre seus alertas principais. Uma trégua que estoura no meio pode puxar outros atores para o confronto, com consequências imprevisíveis para todo o Oriente Médio.
Por que importa: o Oriente Médio é região-chave para o preço do petróleo, e qualquer escalada por lá empurra o barril para cima, o que chega ao Brasil na bomba de combustível e na inflação. Além disso, o país acompanha de perto as crises humanitárias: o Brasil tem histórico de receber refugiados e de defender negociações pacíficas em fóruns internacionais. Uma trégua que resiste abre espaço para o Brasil seguir defendendo saídas diplomáticas num dos conflitos mais delicados do mundo.
