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Doha aposta tudo em reféns: por que Catar e Egito viraram peça insubstituível

ORIENTE MÉDIO
Doha aposta tudo em reféns: por que Catar e Egito viraram peça insubstituível

Mediadores do Catar e Egito retomaram em Doha as negociações sobre troca de reféns e corredores humanitários na guerra entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza. O movimento marca um giro silencioso mas decisivo na geopolítica: sem esses dois países do Golfo na mesa, nenhum cessar-fogo sai do papel.

A guerra começou em outubro de 2023, quando o Hamas atacou Israel e levou reféns. Desde então, dezenas permanecem em cativeiro. Israel respondeu com bloqueio e bombardeios que deixaram a Faixa de Gaza em crise humanitária. Nos meses seguintes, os negociadores tentaram várias vezes um acordo: pausa dos combates, liberação de reféns, entrada de ajuda alimentar e médica. Nada durou. Doha volta à carga porque, sem mediadores de confiança dos dois lados, as partes não conversam.

O Catar mantém relações históricas com o Hamas e acesso direto a seus líderes. O Egito controla a fronteira da Faixa de Gaza e pode abrir corredores de entrada e saída de pessoas e suprimentos. Juntos, eles são o único canal viável. Israel não conversa diretamente com o Hamas; o Hamas desconfia de Washington. Catar e Egito ocupam esse vão, o que lhes dá peso diplomático desproporcional. "Sem acordo sobre reféns, não há cessar-fogo possível", disse um porta-voz do governo egípcio à imprensa, sinalizando que liberação de reféns é pré-condição para qualquer pausa nos combates.

O nó é que cada lado quer mais do que está disposto a dar. Israel quer todos os reféns de volta antes de parar de disparar. O Hamas quer garantia de que Israel não voltará a atacar depois. Catar e Egito tentam costurar um sequenciamento: primeira fase com liberação de reféns vulneráveis em troca de pausa curta; segunda fase com negociação de cessar-fogo permanente. É um quebra-cabeça que depende de confiança mútua, um bem raro neste conflito.

A retomada das negociações em Doha também sinaliza que a pressão internacional cresceu. Meses de morte em massa geraram clamor público até entre aliados de Israel. Governos ocidentais passaram a cobrar um "fim do conflito" mais urgentemente. Para Catar e Egito, essa cobrança é moeda de troca: eles podem dizer a ambos os lados que a comunidade internacional quer solução e que eles, mediadores, são a chave.

Nenhuma rodada de negociação até agora resultou em acordo duradouro. As chances de sucesso em Doha são incertas. Mas o fato de Israel, Hamas, Catar e Egito voltarem à mesa indica que pelo menos há vontade de tentar. A diplomacia do Golfo, historicamente ofuscada por potências distantes, tornou-se o coração das negociações de paz no Oriente Médio.

Por que importa: Brasil importa fertilizantes e alimentos de regiões afetadas pelo conflito. Uma escalada em Gaza pressiona preços de commodities globais, que repercutem na inflação interna e no custo de produção agrícola. Além disso, a estabilização da região reduz incerteza sobre rotas de comércio e sobre o preço do petróleo, que ainda alimenta parte da matriz energética brasileira. Doha em xeque significa mais volatilidade e riscos para o bolso do brasileiro.

Fontes