A Europa e os Estados Unidos entram em 2025 usando os mesmos trunfos que usaram na Guerra Fria: petróleo e armas como instrumentos de poder. De um lado, a União Europeia avança com um pacote de rearmamento conjunto chamado ReArmEurope, respondendo à pressão da OTAN (aliança militar ocidental liderada pelos EUA) para que cada membro gaste 3% do produto interno bruto (tudo que um país produz em um ano) em defesa. Do outro, Washington revisa as licenças da Chevron para extrair petróleo na Venezuela, movimento que já desacelera os embarques globais e encarece o barril no mercado internacional.
O plano ReArmEurope marca uma virada. Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, a Europa articula um fundo de defesa comum para financiar compras conjuntas de armas e equipamentos militares. A meta de 3% do PIB em gastos de defesa, imposta pela OTAN, força Berlim, Paris, Varsóvia e outros a abrir os cofres simultaneamente. Alemanha e França, as duas maiores economias do continente, já anunciaram aumentos de orçamento militar. O sinal é claro: a segurança europeia não pode mais depender só dos EUA.
Enquanto a Europa rearma, Washington aperta a Venezuela pelo lado do petróleo. A revisão das licenças da Chevron, a única produtora de grande porte ainda operando em Caracas, reduz os embarques venezuelanos. A queda é real: em 2023, a Venezuela exportava cerca de 750 mil barris por dia; agora, essa cifra caiu para menos de 300 mil. Para um país que vive do petróleo, é um aperto econômico. Para o mercado global, é pressão nos preços.
A lógica que une os dois movimentos é a mesma. Tanto a Europa quanto os EUA descobriram (ou redescobriram) que recursos estratégicos, armas, energia, moeda, voltaram a ser moedas de negociação política. Não é só economia. É poder. A Europa reforça sua capacidade de defesa porque não quer depender de Washington em caso de confronto com a Rússia. Os EUA apertam a Venezuela para desestabilizar o regime de Nicolás Maduro e consolidar sua influência na América Latina. Duas estratégias, um princípio: quem controla os recursos controla a mesa.
O mercado de petróleo já sente isso. Cada licença revisada, cada sanção añadida puxa o barril para cima. Não é uma explosão de preço como a de 2022, mas é suficiente para manter a pressão. A OPEP, cartel de países produtores de petróleo liderado pela Arábia Saudita, tenta frear a queda mantendo cortes de produção. Mas a verdade é que, quando Washington move a Chevron e Bruxelas move o cheque de defesa, os mercados sentem o tremor.
Essa dinâmica não é nova, é claro. Petróleo e armas sempre foram moedas políticas. O que é novo é a volta da ideia de que não há diferença entre segurança e economia. Europa rearmando significa demanda por aço, tecnologia, munição. EUA controlando petróleo significa controlar o fluxo de energia global. As duas coisas mexem com inflação, custo de vida, recessão.
Por que importa: O Brasil não escapa dessa lógica. Quando a Chevron reduz produção na Venezuela, o petróleo fica mais caro, e o Brasil importa uma parte da sua gasolina. Quando a Europa aumenta gastos com defesa, tecnologia e aço ficam mais caros, e isso impacta a indústria brasileira. Além disso, um barril mais caro pressiona a inflação global e, por tabela, afeta o dólar no bolso do brasileiro. A política de poder em outras partes do mundo não é distante: ela sobe na bomba, no supermercado e na fatura de energia.
