A situação no Sudão piorou drasticamente. O cerco militar à cidade de El Fasher, capital da região de Darfur, transformou-se em uma das maiores crises humanitárias do planeta, com a ONU registrando o maior deslocamento de pessoas desde o início da guerra civil sudanesa em abril de 2023. Os convoos de ajuda estão bloqueados, as ruas intransitáveis e civis não têm como sair. Enquanto potências negociam em mesas de segurança internacional, o Sudão mostra o custo real de conflitos que saem do noticiário.
O Sudão está dividido entre o Exército regular e as Forças de Apoio Rápido, milícia armada que disputa o poder desde a deposição do ditador Omar al-Bashir em 2019. El Fasher virou símbolo dessa disputa: uma das poucas cidades ainda sob controle do Exército em Darfur, cercada pela milícia. Nos últimos meses, o cerco apertou. Civis saem de casa só porque não têm para onde ir, abandonando pertences e criando filas de deslocados que a ONU descreve como "incontroláveis". Os números são devastadores: desde o início da guerra, mais de 10 milhões de sudaneses foram forçados a deixar suas casas. El Fasher sozinha sofre com falta de alimentos, medicamentos e água.
Os bloqueios humanitários não são acaso. Ambos os lados em guerra usam a fome como arma. A ONU denunciou repetidas vezes que o acesso a El Fasher foi negado, impedindo que agências internacionais levassem mantimentos e remédios. A milícia controla as estradas; o Exército controla a cidade. Civis ficam presos no meio. Uma porta-voz da ONU declarou que "a situação em El Fasher é uma emergência dentro de uma emergência", referindo-se à crise maior do país. Sem corredores humanitários funcionando, as organizações internacionais trabalham com os olhos vendados.
O silêncio relativo das negociações globais amplifica esse vazio. Enquanto Israel e Ucrânia ocupam as agendas diplomáticas, o Sudão enfrenta uma fome silenciosa que rival qualquer conflito recente em intensidade. Isso não é acaso: o Sudão tem menos peso geopolítico para potências ocidentais, menos petróleo estratégico em jogo, menos aliados visíveis. A região de Darfur foi palco do primeiro genocídio do século 21, em 2003, e hoje repetem-se padrões semelhantes. A diferença é que agora há ferramentas de documentação internacional: a ONU sabe o que está acontecendo e avisa. Ninguém age.
O deslocamento em massa reflete um cálculo desesperado de civis que veem El Fasher como condenada. Vizinhos fogem para campos de refugiados em estados próximos ou tentam alcançar o Egito e a Líbia. Mulheres e crianças constituem a maioria dos deslocados. Desnutrição aguda atinge taxas críticas entre menores de cinco anos. A ONU classifica a situação como "risco iminente de fome", a etapa anterior à declaração formal de fome.
Por que importa: O Brasil acolhe refugiados sudaneses desde os anos 2000 e tem presença em organismos de direitos humanos das Nações Unidas. A crise humanitária sudanesa não é distante: ela produz pressão migratória que alcança rotas internacionais, inclui brasileiros em agências humanitárias na região e testa a capacidade de o Brasil manter sua tradição de país receptor em um contexto de crises globais simultâneas. Além disso, a inação internacional no Sudão enfraquece normas de direito internacional que o Brasil também precisa que sejam respeitadas em outros conflitos.
