A vida cotidiana em Gaza desabou. Pelo menos 21 pessoas, muitas delas crianças, morreram esta semana quando um prédio desmoronou na Cidade de Gaza, vítima dos bombardeios israelenses que se sucedem desde outubro de 2023. O colapso da estrutura é um reflexo do colapso maior: cidades inteiras destruídas, milhares deslocados, infraestrutura civil em frangalhos. E enquanto isso acontece, a mesma guerra que devasta a região está rasgando o Partido Democrata americano, dividindo a cúpula tradicional do partido de figuras que crescem pedindo cessar-fogo imediato.
Jaser Abu Mousa, pesquisador sênior do Centro de Estudos do Oriente Médio, foi entrevistado longamente pela revista The New Yorker sobre como é viver em Gaza neste momento. Com base em sua experiência direta e conversas contínuas com pessoas na região, Abu Mousa descreve um cenário de destruição generalizada e fuga em massa de civis. Não se trata de relato de agência de notícias: é testemunho de quem segue observando o dia a dia, vendo casas virar escombro, famílias perderem tudo. A narrativa que chega dos documentários e redes sociais é apenas a superfície. Por trás dela há crianças que não vão mais à escola porque a escola não existe mais, há idosos sem medicamentos, há quarteirões inteiros apagados do mapa.
Esse custo humano, cada vez mais documentado e visível, provocou fraturas profundas dentro do Partido Democrata nos Estados Unidos. A cúpula do partido, historicamente aliada de Israel, vê a questão como segurança e direito à existência. Mas alas progressistas e lideranças jovens do partido intensificaram a pressão contra o apoio incondicional ao governo de Benjamin Netanyahu, pedindo restrições aos armamentos e uma mudança de rumo nas negociações de paz. A visita recente de Netanyahu a Nova York trouxe à tona justamente essa divisão, com manifestações internas e discursos públicos que mostram um partido cada vez menos alinhado.
O que mudou é o peso da imagem contra o peso da declaração diplomática. Antes, a política externa americana funcionava com poucos escrutínios públicos e muita confiança nas explicações oficiais. Hoje, qualquer pessoa com um celular consegue documentar destruição e espalhar a informação em tempo real. Politicamente, isso significa que candidatos democratas em eleições próximas terão de responder, cada vez mais, por que apoiam uma guerra que mata civis em escala que já superou conflitos recentes na mídia global. A base eleitoral jovem do partido, particularmente, demonstra rejeição clara a essa posição.
A rachadura não é apenas moral ou de opinião pública: é estrutural. Doadores tradicionais do partido, que costumavam financiar campanhas sem questionar a agenda internacional, agora enfrentam pressão de ativistas. Senadores e deputados que antes guardavam silêncio sobre Israel agora falam abertamente. A guerra em Gaza virou, de repente, um dos temas mais divisivos da política doméstica americana, ao lado de economia e direitos reprodutivos.
Por que importa: O Brasil tem uma comunidade palestina e uma comunidade judeu-israelense significativas, e historicamente posiciona-se pela defesa de direitos humanitários na ONU e em fóruns multilaterais. A divisão democrata americana sobre Israel também afeta o realinhamento das relações bilaterais: um possível novo governo americano, em 2025, pode ter posição diferente sobre o conflito. Além disso, a guerra aquece debates sobre política externa brasileira, soberania em votações internacionais e a própria coesão de alianças ocidentais que afetam comércio e segurança da região.
