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Ucrânia: a dissuasão que segura a guerra dentro de suas bordas

GEOPOLÍTICA
Ucrânia: a dissuasão que segura a guerra dentro de suas bordas

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) armou a Ucrânia pesadamente, mas não entrou na guerra. A Rússia avançou de forma agressiva, mas não tocou em território da Aliança. O conflito que começou em 2022 continua congelado nessa zona cinzenta, e o mérito, segundo analistas, é da dissuasão: o cálculo de que o custo de cruzar certos limites é proibitivo. Agora, com Zelensky sinalizando disposição de negociar com Putin, e os preços do trigo subindo nas bolsas globais, a guerra toma novos contornos.

"A dissuasão funciona", afirma Lawrence Freedman, professor de estudos de guerra na King's College London, em análise recente na Foreign Affairs. "A OTAN deu muito apoio à Ucrânia, mas não entrou de verdade na guerra. E a Rússia, apesar de estar chegando mais perto, não atacou território da OTAN." É uma forma de dizer que ambos os lados conhecem as linhas vermelhas, e, por enquanto, as respeitam.

Isso não significa que o conflito seja menos sangrento ou destrutivo. Significa que existe uma barreira invisível mas real: os EUA e seus aliados europeus fornecem armas sofisticadas, inteligência de satélite e suporte logístico sem pilotos americanos ou europeus combatendo. A Rússia investe homens e material na guerra, mas evita ataques que pudessem interpretar como provocação direta à Aliança. Essa dinâmica mantém a guerra circunscrita, não é tregua, é congelamento.

Mas o tabuleiro mexeu na semana passada. Durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, Zelensky disse à imprensa que está aberto a um encontro trilateral com Putin. "Nem tudo é perdoado", ressalvou. "Mas é um sinal." A declaração, ainda que cautelosa, abre a porta para negociações que até pouco tempo pareciam impensáveis. Ninguém fala em rendição ucraniana, Zelensky mantém a postura de defender sua soberania. Mas admitir conversa direta com Moscou é movimento tático novo.

Enquanto diplomatas sondam possibilidades, os mercados já se mexem. Compradores de trigo, principal commodity que sai do mar Negro e passou a sofrer bloqueios desde 2022, se preparam para custos mais altos se a guerra continuar arrastando. Reuters reportou que traders europeus e asiáticos estão precificando um cenário em que a volatilidade persiste, nem guerra aberta, nem paz, mas instabilidade crônica que afeta colheita, escoamento e preço final.

A dissuasão, portanto, tem um preço. Mantém a guerra longe de Paris, Berlim ou Varsóvia, mas não a elimina. Enquanto Putin e Zelensky não estiverem à mesma mesa com propostas concretas, o congelamento segue, armas continuam fluindo, vidas continuam sendo perdidas, e as plantações do Leste Europeu permanecem sob incerteza.

Por que importa: o Brasil importa fertilizantes russos e depende do trigo que vem da Ucrânia e da Rússia. Se a guerra arrastar e os preços do trigo continuarem altos, a inflação brasileira volta a subir, afetando o pão, a farinha, o custo de produção de alimentos. Além disso, quanto mais tempo durar o conflito congelado, mais cara fica a energia na Europa, o que pode desestabilizar o dólar e afetar as exportações brasileiras de commodities. Uma negociação rápida entre Zelensky e Putin seria alívio para os bolsos brasileiros.

Fontes

  • “All in all, deterrence works,” says @LawDavF. “NATO has given Ukraine a lot of support, but it hasn’t actually joined in [the war]. Equally · Foreign Affairs [imprensa]
  • On the sidelines of the U.N. General Assembly, Ukrainian President Volodymyr Zelensky told FP that he’s ready for a trilateral meeting with · Foreign Policy [imprensa]
  • Wheat buyers brace for higher costs as Russia-Ukraine war drags on - Reuters · Reuters Conflict