O Irã parou de exportar petróleo em setembro. Pela primeira vez em meses, nenhuma gota saiu dos portos iranianos rumo aos mercados internacionais, resultado direto da pressão americana que sufoca a economia de Teerã. Ao mesmo tempo, a China, maior refinaria do mundo, simplesmente deixou de vender combustível no exterior. Os dois choques de oferta convergiram: o barril de petróleo disparou perto de 92 dólares e o Brasil sente na bomba.
A situação iraniana não é novidade. As sanções americanas contra o Irã existem há anos, mas setembro marca um ponto de inflexão. Os dados de rastreamento de navios-tanque mostram que a República Islâmica não carregou uma única carga de petróleo bruto em setembro, zero. Isso encerrou um período de um ou dois anos em que, apesar da vigilância americana, o Irã conseguia escoar pequenos volumes através de rotas paralelas, geralmente para China e Ásia do Sul. Agora, a rede se fechou. A Casa Branca apertou tanto o cerco que nem os intermediários conseguem contornar.
Mas o pico de preço desta semana não vem só do Irã. O gatilho foi outro. Refinarias chinesas, que normalmente exportam diesel, gasolina e combustível de aviação para o mundo inteiro, simplesmente pararam. A China enfrenta pressão interna: economia desacelerada, demanda doméstica fraca, lucros das refinarias comprimidos. Em vez de vender combustível pronto no mercado externo, as refinarias chinesas estão segurando estoques. O efeito cascata é brutal. A escassez não é de petróleo bruto (ainda há oferta), mas de combustível acabado, aquilo que você coloca no carro. Diesel, gasolina e querosene de aviação ficaram mais raros. O mercado reagiu: o barril subiu para perto de 91,50 dólares em poucas horas.
O Irã perdeu sua válvula de escape. A China, sua maior compradora disfarçada, virou entreposto vazio. Nenhum outro produtor tem capacidade rápida para tampar o buraco. A Arábia Saudita já está no limite de sua capacidade ociosa. Rússia e Venezuela também sofrem sanções. O resultado é uma oferta global mais apertada, e os preços refletem essa realidade. O barril está oscilando entre 91 e 92 dólares, patamar que não se via desde a eclosão da crise do Oriente Médio meses atrás.
Washington ainda estuda enviar mais tropas para a região: outro porta-aviões, reforço de esquadrilhas. A mensagem é clara: quanto mais intensa a pressão americana no Golfo, mais apertada fica a oferta de petróleo. É um círculo. Maior segurança geopolítica para os EUA significa preços mais altos para o resto do mundo, incluindo o Brasil.
Por que importa: a gasolina na bomba brasileira sobe quando o barril sobe, não na mesma proporção, mas sobe. Um carro que enche o tanque por 200 reais hoje pode pagar 220 em poucas semanas se o barril seguir para 95 ou 100 dólares. Além disso, petróleo mais caro pressiona a inflação geral e encarece insumos de transporte e logística. E há mais: o real se enfraquece quando o petróleo sobe, porque o Brasil importa combustível e o dólar fica mais caro. É um movimento que toca no bolso do brasileiro de três formas: na bomba, na conta de luz (geração térmica fica mais cara) e na cesta de compras (tudo que é transportado fica mais caro).
