A Rússia sofreu suas piores perdas de 2026 em setembro, com 46.230 soldados mortos ou feridos, segundo o exército ucraniano. Ao mesmo tempo, Moscou dispõe de novos drones para quebrar as defesas ucranianas antes do inverno e intensifica ameaças nucleares contra a Europa. O padrão é claro: perdendo território no campo de batalha, o Kremlin tenta compensar com intimidação existencial.
As casualidades russas atingiram novo recorde no mês passado após meses de cerca de 40 mil soldados mortos ou feridos por mês desde junho. O próprio presidente ucraniano Volodymyr Zelensky havia fixado uma meta de 50 mil baixas russas mensais em janeiro, e setembro chegou perto desse número. No dia 28 de setembro, a Rússia perdeu 2.090 soldados em apenas 24 horas, a maior taxa diária do ano. Essas perdas refletem a incapacidade de Moscou recuperar o território que abandonou, especialmente na região fronteiriça de Kursk.
Para compensar, a Rússia está ampliando o uso de drones, incluindo modelos mais novos que conseguem furar as defesas aéreas ucranianas. Com o inverno se aproximando, Moscou ganha vantagem nas operações aéreas, pois a cobertura de nuvens reduz a eficácia dos sistemas de defesa. A estratégia russa muda de foco: menos ganho territorial, mais degradação da capacidade ucraniana de resistir.
Simultaneamente, Sergei Karaganov, ex-conselheiro de Putin apelidado de "professor do fim do mundo" por sua visão pessimista do mundo, escalou a retórica nuclear. Em discurso no Clube Valdai em 1º de outubro, Karaganov advertiu que a Rússia usará armas nucleares se a OTAN, aliança militar ocidental liderada pelos EUA, enviar tropas à Ucrânia ou atacar Kaliningrado, território russo no Báltico. "Milhões morrerão na Europa", afirmou, referindo-se ao custo de um conflito nuclear. A mensagem não é casual: prepara a opinião pública russa para uma possível escalada.
A Polônia, porta de entrada da OTAN mais próxima do conflito, já respondeu com ações concretas. Varsóvia reabrirá abrigos da Guerra Fria para proteger civis, sinalizando que leva a ameaça a sério. Não se trata de pânico, mas de preparação estatal, como fizeram países escandinavos após a invasão de 2022. A reabertura de bunkers não vista desde os tempos soviéticos transmite uma mensagem clara: a percepção de risco nuclear na Europa Ocidental mudou.
O padrão conecta os três fenômenos. Moscou, incapaz de avançar militarmente, busca compensar levantando o custo percebido de qualquer envolvimento direto ocidental. Os drones novos mantêm a guerra viva na Ucrânia durante o inverno. A retórica nuclear endurecida tenta congelar qualquer nova escalada no nascimento. Tudo isso pressiona europeus e americanos a negociar, não do ponto de vista da derrota russa, mas do medo de destruição mútua.
Por que importa: A Rússia é um dos principais fornecedores mundiais de fertilizantes e energia. Se a guerra escalar para envolvimento nuclear, os mercados de grãos e petróleo ficarão em caos, elevando a inflação global. O Brasil, que importa fertilizantes russos e concorre globalmente em commodities agrícolas, sofreria aumento de custos de produção e queda de receita nas exportações. Além disso, a incerteza geopolítica empurra investidores para dólar americano como refúgio, aumentando a moeda no Brasil e elevando o custo de importações. Uma escalada nuclear europeia não é ficção científica: ela muda o preço do seu supermercado e do seu combustível.
