Forças do governo iemenita dizem ter retomado um distrito-chave na maior ofensiva militar dos últimos tempos para recuperar áreas controladas pelos hutistas, grupo rebelde apoiado pelo Irã. O avanço marca uma tentativa de mudar o mapa político interno do país, mas o desfecho pode ecoar bem além das fronteiras: são os mesmos hutistas cujos ataques a navios mercantes no Mar Vermelho encareceram rotas de carga e forçaram desvios que ligam a Ásia à Europa.
A ofensiva ganhou escala nos últimos dias, com forças governamentais apoiadas por coalizão liderada pela Arábia Saudita avançando sobre postos hutistas em várias frentes. O governo reivindicou o controle de um distrito estratégico, embora detalhes sobre a extensão real do avanço permaneçam confusos. Militares locais descrevem a campanha como resposta à necessidade de recuperar territórios perdidos durante uma guerra que dura desde 2014 e deixou o Iêmen entre os piores cenários humanitários do mundo.
O contexto importa: os hutistas, oficialmente conhecidos como Movimento Ansarala, controlam a zona mais povoada do Iêmen, incluindo a capital Sanaa. Desde 2022, o grupo intensificou ataques a navios no Mar Vermelho, alegando solidariedade aos palestinos e oposição à presença americana na região. Esses ataques forçaram armadores (as empresas que operam navios) a desviarem rotas pelo cabo da Boa Esperança, na África do Sul, uma volta que adiciona duas semanas de viagem e eleva significativamente os custos de frete.
Para o governo iemenita, reconquistar territórios hutistas é questão de poder político e legitimidade. Para o comércio global, qualquer mudança no controle desses territórios importa porque afeta quem consegue influenciar o que passa pelo Mar Vermelho. Se as forças governamentais avançarem e conquistarem mais pontos de pressão na costa, poderiam, em tese, reduzir a capacidade hutista de atacar navios. Mas a história do Iêmen mostra que vitórias militares são fugazes: mesmo com apoio saudita e de potências ocidentais, o governo luta para consolidar ganhos territoriais.
Os hutistas, por sua vez, descrevem seus ataques como resistência legítima contra o que chamam de agressão estrangeira. O grupo mantém capacidade de ação apesar da pressão militar e continua operando drones (aeronaves não tripuladas) e mísseis contra navios civis. Qualquer pausa nessa pressão dependeria menos de avanços no terreno e mais de negociações políticas, ainda distantes.
Por que importa: O Canal de Suez, pela ponta desse corredor, é caminho de boa parte das importações brasileiras vindas da Ásia, especialmente eletrônicos e componentes industriais. Quando os custos de frete sobem, esses produtos ficam mais caros nas lojas e nos pedidos das fábricas. Se a tensão no Mar Vermelho persistir ou piorar, o impacto chega ao bolso do consumidor brasileiro e aos preços de produção das empresas.
