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Petróleo: fluxo recorde, medo crescente

ENERGIA
Petróleo: fluxo recorde, medo crescente

Exportações de petróleo do Oriente Médio voltaram a níveis anteriores à guerra em quatro dos sete dias do final de setembro, segundo dados da empresa de rastreamento de navios Kpler. Mas a realidade por trás dos números é paradoxal: há petróleo em abundância para vender, o problema é a segurança da rota que o carrega. Ataques a petroleiros e avisos sobre riscos à navegação transformaram o Golfo Pérsico numa zona cara demais, mesmo com oferta robusta. É essa contradição que explica por que a OPEP+ congelou suas metas de produção para novembro e por que o preço do barril continua perto dos 100 dólares.

A guerra entre Israel e Hamas, iniciada em outubro de 2023, deixou em dúvida se o Oriente Médio conseguiria manter sua produção. A resposta veio: conseguiu. Os dados de setembro mostram que, em vários dias, as exportações superaram o patamar pré-guerra. Um comandante sênior da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, Ali Fadavi, afirmou em entrevista televisiva que apenas três a quatro milhões de barris por dia agora fluem pela rota, o que sinaliza uma redução real em relação aos níveis históricos, mas não uma colapso.

O que mantém o preço elevado, porém, não é falta de petróleo. É o medo. Nos últimos meses, ataques a petroleiros e avisos de riscos à navegação multiplicaram-se na região. Cada incidente reforça a percepção de que transportar óleo pelo Golfo virou uma aposta arriscada. Quando o risco sobe, os seguros e fretes (o preço de transportar o óleo de navio) sobem com ele. É como pedir táxi em dia de enchente: há carros disponíveis, mas sair custa caro demais.

A OPEP+, bloco de sete produtores de petróleo liderado pela Arábia Saudita e Rússia, refletiu exatamente essa realidade ao congelar as metas de produção para novembro. Um comunicado do comitê de monitoramento do grupo alertou explicitamente para "riscos à infraestrutura energética e à navegação". A mensagem é clara: não há espaço para ampliar oferta enquanto o mar que a carrega segue perigoso. Manter os preços firmes virou estratégia defensiva.

O resultado é que o mercado segue travado entre dois medos. Produtores temem que qualquer aumento de oferta despenque o preço, enquanto consumidores enfrentam custos artificialmente altos por causa de um prêmio que reflete não a escassez de óleo, mas a instabilidade geopolítica. Futuros de petróleo já recuam em momentos de calmaria, sinalizando que o mercado está consciente de que esse desequilíbrio é temporário. Mas enquanto durar, o Golfo exporta caro.

Por que importa: A alta do petróleo no Oriente Médio chega direto à inflação, ao preço do combustível na bomba e aos custos de produção das empresas brasileiras. O Brasil não depende do petróleo do Golfo para importar (temos produção interna), mas o preço internacional é referência global e impacta desde o frete de exportações até a conta de energia. Um dólar mais caro, inflação mais alta, desemprego crescente: tudo segue conectado a um estreito de água a dez mil quilômetros daqui.

Fontes