O chefe do Pentágono, Pete Hegseth, afirmou nesta quarta-feira que os Estados Unidos farão "o que for necessário" para impedir que o Irã tenha uma arma nuclear, enquanto o FMI, o Fundo Monetário Internacional, que acompanha a economia mundial, avisou que uma guerra prolongada é o maior risco para o Oriente Médio. As duas declarações parecem falar de assuntos diferentes. Na prática, são as duas faces do mesmo problema: a ameaça militar tenta conter o programa nuclear iraniano, e é justamente a possibilidade de o conflito se arrastar que ameaça afundar a economia da região.
Hegseth fez o pronunciamento durante um painel no encontro anual da Associação do Exército dos Estados Unidos, em Washington. O evento ficou marcado pela reação do público: o secretário foi interrompido várias vezes por manifestantes contrários à guerra. A cena é um resumo do clima político americano. No Congresso e nas ruas, parte da opinião pública questiona se novas confrontações no Oriente Médio valem o custo. Mesmo sob vaia, Hegseth manteve a linha dura, reafirmando que Washington não aceita que o Irã se torne uma potência nuclear.
O que está em jogo é o programa nuclear iraniano. O Irã conducts enrichamento de urânio, o processo que serve para produzir combustível para usinas, mas que, em concentração alta, também permite fabricar material para uma bomba. O governo iraniano afirma que o programa é para fins pacíficos, de energia e medicina. Estados Unidos e aliados desconfiam que o objetivo real seja militar. Uma arma nuclear nas mãos de Teerã mudaria o equilíbrio de forças de toda a região, onde já há disputas entre vizinhos rivais. Daí a insistência americana em impedir esse passo a qualquer custo.
É aí que entra o alerta do FMI. A instituição avisou que a ameaça maior para o Oriente Médio não é só o risco nuclear, mas sim o cenário de guerra prolongada e de novas interrupções na atividade econômica. Países da região dependem de coisas simples e concretas para prosperar: comércio, turismo, investimento externo e, principalmente, a exportação de petróleo pelas rotas do Golfo Pérsico. Quando o medo de um conflito cresce, navios ficam mais caros de assegurar, empresas adiam projetos e governos gastam mais com defesa e menos com estradas, escolas e saúde.
O impasse, portanto, tem uma armadilha. A pressão militar americana foi desenhada para dissuadir o Irã, o que significa impedir que o país faça algo pela força de ameaça, não de ação. Só que ameaças que não encerram o problema mantêm a região em alerta. E manter a região em alerta por muito tempo é exatamente o que o FMI diz que pode queimar a economia. Teerã, por sua vez, enxerga a pressão como prova de que precisa de proteção, o que dificulta concessões nas negociações.
Por que importa: o Oriente Médio é onde boa parte do petróleo do mundo é extraído e transportado. Quando a região trava, o preço do barril sobe, o frete dos navios encarece e a gasolina e o diesel sobem na bomba no mundo inteiro, inclusive no Brasil. O país importa quase todo o diesel que consome e produz petróleo cujo preço é definido no mercado global, não aqui dentro. Guerra longa no Golfo significa inflação maior, conta de transporte mais cara e menos previsibilidade para o governo e para as empresas brasileiras.
