O Fundo Monetário Internacional (FMI) fez um alerta nesta semana: nações de baixa renda estão dedicando até 14% de tudo o que arrecadam apenas para cobrir os pagamentos de suas dívidas. A cifra, segundo a diretora-geral do fundo, Kristalina Georgieva, revela um estrangulamento financeiro que deixa governos sem espaço para investir em saúde, educação ou infraestrutura básica.
O número não surge do nada. A combinação de inflação global elevada, juros internacionais nas alturas e os efeitos colaterais das guerras em curso cria uma tempestade perfeita para economias que já partem de uma posição frágil. Quando o Banco Central dos Estados Unidos ou do Europa sobe a taxa de juros, o custo de empréstimos internacionais dispara para todos, mas quem menos tem capacidade de pagar é quem mais sofre.
Existe uma conexão direta entre os conflitos que dominam as manchetes e o aperto no orçamento desses países. A guerra na Ucrânia e as tensões no Oriente Médio, por exemplo, encareceram alimentos e combustíveis no mundo inteiro. Nações que dependem de importações para alimentar sua população precisam gastar mais dólares com a mesma cesta básica, ao mesmo tempo em que suas moedas perdem valor e o serviço da dívida em moeda estrangeira fica mais caro.
A consequência prática é um ciclo vicioso. O governo paga juros, sobra menos dinheiro para políticas públicas, a economia não cresce, a arrecadação cai e a dívida consome uma fatia ainda maior do que entra. Georgieva defendeu que países ricos e instituições multilaterais precisam ampliar o apoio financeiro a essas nações, sob o risco de ver crises humanitárias se agravarem e ondas migratórias crescerem.
O Fundo também sinalizou que a reestruturação de dívidas, ou seja, a renegociação dos prazos e valores que esses países devem, precisa avançar mais rápido. Sem isso, a rota atual leva ao calote ou ao colapso de serviços públicos em lugares onde a população já vive no limite.
Por que importa: O Brasil não é classificado como país de baixa renda, mas a instabilidade nos países mais pobres tem efeito direto aqui. Instabilidade alimentar e migratória amplifica a volatilidade nos mercados de commodities, pressiona o câmbio e pode elevar o preço de alimentos importados. Além disso, o real se move junto com o humor dos investidores emergentes: quando a percepção sobre países em desenvolvimento piora, o dólar tende a subir, e com ele o preço de tudo que depende de insumo importado.
