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Oriente Médio·3 min de leitura

Gaza: fome se instala como arma de guerra

ORIENTE MÉDIO
Gaza: fome se instala como arma de guerra

Famílias em Gaza dizem estar sem conseguir oferecer refeições nutritivas às crianças depois que Israel restringiu a entrada de mercadorias na Faixa de Gaza no início de outubro, interrompendo o abastecimento comercial que abastecia mercados e padarias. O que antes era um efeito colateral do conflito agora é um dos próprios teatros da guerra: a comida, que faltou de forma gradual, virou um item de disputa.

Huda Abu Leila, de 30 anos, mãe de cinco filhas, relata à Al Jazeera que servir apenas chá e pão no café da manhã virou rotina há meses. "Me preocupa que minhas filhas adoeçam se eu não puder lhes dar comida nutritiva o bastante", disse ela, em Gaza City, na Faixa de Gaza. O desabastecimento agravou-se justamente quando as lojas que vendiam produtos frescos e fórmulas infantis deixaram de receber carga. Quem precisa de leite, fruta ou verdura simplesmente não acha.

A mecânica é direta. Quando a entrada de bens é cortada, o estoque dos mercados esgota em poucos dias e o preço do que sobra dispara. No lugar de uma mesa com variedade, sobra o que dá para comprar com pouco ou nada: pão, chá, um pedaço de legume. Para uma família com cinco crianças, isso significa que a alimentação mais importante do dia, o café da manhã, foi reduzida ao mínimo. A conta não é só financeira, é nutricional: faltar proteína e vitaminas numa idade de crescimento deixa marcas que demoram anos para aparecer.

É nesse ponto que a fome deixa de ser consequência e passa a ser instrumento. Quando o abastecimento é bloqueado de forma prolongada, a população civil fica sem opção além de depender da ajuda humanitária, que depende, por sua vez, de corredores abertos e de negociações políticas. O alimento, então, deixa de ser um direito básico e vira uma alavanca de pressão sobre quem está do outro lado da mesa. É por isso que o caso de Huda Abu Leila não é isolado: é o retrato de uma cidade em que comprar comida virou um problema de sobrevivência, não de rotina.

A pressão internacional responde a esse quadro com um pedido recorrente: corredores humanitários permanentes, com inspeção ágil e garantias de que a ajuda chega sem interrupções. Organismos e governos que exigem esses corredores argumentam que o bloqueio prolongado do abastecimento viola o princípio básico de que civis não podem ser usados como moeda de negociação. Gaza City, onde Huda Abu Leila mora, concentra parte desse drama: são meses de guerra, três anos de conflito contínuo, e agora a falta de comida na mesa como ponto de virada.

Por que importa: O Brasil tem uma tradição de diplomacia humanitária e costuma apoiar corredores de ajuda em conflitos externos, então a pressão por rotas seguras em Gaza recai também sobre o Itamaraty nas votações e nas negociações internacionais. Do lado prático, o custo da guerra aparece no supermercado brasileiro: quando a produção e o transporte de alimentos no Oriente Médio e no Mar Vermelho ficam arriscados, o frete global sobe e a cesta básica sente. Arroz, trigo e óleos vegetais seguem o preço internacional, e essa variação chega à gôndola em poucas semanas, pressionando a inflação que afeta o bolso de todo mundo aqui dentro.

Fontes