A Indian Oil, a maior refinadora estatal da Índia, decidiu reduzir os contratos anuais de compra de petróleo do Oriente Médio por causa da guerra no Irã. A empresa vai cortar as volumes garantidas com fornecedores árabes e buscar fornecedores em outros lugares, segundo a Reuters. No mesmo dia, os rebeldes hutis do Iêmen atacaram um acampamento militar em Áden com um míssil balístico, e fumaça foi vista subindo perto do aeroporto da cidade. As duas notícias parecem distantes, mas contam a mesma história: o risco está subindo justamente onde sai boa parte do petróleo do mundo.
A Índia é um dos maiores compradores de petróleo do planeta e depende fortemente do Golfo Pérsico, a faixa de mar entre a Arábia Saudita, o Irã e os Emirados Árabes Unidos onde ficam algumas das maiores reservas do mundo. Quando uma guerra ameaça essa região, dois problemas aparecem ao mesmo tempo. O primeiro é físico: navios-tanque podem precisar desviar de rotas perigosas, o que encarece e atrasa a entrega. O segundo é jurídico e político: sanções contra o Irã tiram parte do petróleo iraniano do mercado ou dificultam a compra. Para uma refinadora que precisa garantir combustível o ano inteiro, a conta não fecha mais só com o Golfo.
A manobra da Indian Oil é um exemplo do que os analistas chamam de diversificação forçada. Quando um fornecedor fica arriscado, o comprador passa a dividir os pedidos entre mais países, mesmo que alguns custem um pouco mais. É parecido com quem tem todo o dinheiro em um único banco e muda as coisas depois de um susto: perde-se um pouco de conforto, mas ganha-se segurança. A decisão vale porque os contratos anuais são a espinha dorsal do comércio global de petróleo. Quem renegocia esses contratos agora está redesenhando para onde o barril viaja nos próximos meses.
O ataque em Áden mostra por que esse medo não é exagero. Os hutis, grupo armado que controla boa parte do norte do Iêmen e que já atacou navios no Mar Vermelho desde o começo da guerra em Gaza, disseram ter atingido um acampamento militar com um míssil balístico. Áden fica na entrada do Mar Vermelho, o corredor que liga o Golfo ao Mediterrâneo pelo Canal de Suez. Qualquer ameaça ali aumenta o prêmio de risco, ou seja, o custo extra que seguradoras e armadores cobram para trafegar na região. E esse custo é repassado no preço do barril.
O lado bom para alguns produtores é direto: quem está fora dessa zona de tensão ganha espaço. Brasil, Guiana, Estados Unidos e produtores africanos como Angola e a Nigéria vendem petróleo que não passa pelo Golfo nem pelo Mar Vermelho. Se a Índia e outros compradores asiáticos, como a China e a Coreia do Sul, seguirem pelo caminho da diversificação, esses fornecedores recebem pedidos que antes iam para os árabes. A guerra, ao travar o caminho tradicional, abre janela para quem está no outro lado do mundo.
Por que importa: O Brasil é um exportador líquido de petróleo e tem no mercado asiático um dos destinos mais valiosos do seu barril, que é mais leve e doce, ideal para refino. Mais demanda asiática por óleo fora do Golfo significa mais compradores para o petróleo brasileiro, mais receita em dólares e mais pressão para o pre-sal trabalhar. Para quem enche o tanque no Brasil, o efeito chega pelo outro lado: quanto mais longe e mais caro o barril viaja, maior a tensão no preço internacional do combustível, que alimenta a inflação e ajuda a definir quanto a bomba vai cobrar na esquina.
