O Egito enfrenta uma escolha incômoda. A Arábia Saudita pede ajuda militar para conter os ataques dos hutis no Mar Vermelho, mas o Cairo hesita, porque entrar nessa guerra soa como um aviso de desastre. A última vez que o Egito se envolveu militarmente no Iêmem, nos anos 1960, o custo foi tão alto que ajudou a derrubar o presidente Gamal Abdel Nasser. Agora, o dilema é o mesmo: intervir e se desgastar, ou ficar de fora e perder influência em uma rota que passa pela porta de casa.
A guerra que o Egito teme repetir começou em 1962, quando Nasser enviou dezenas de milhares de soldados para apoiar a revolução republicana iemenita contra a monarquia. O conflito virou uma sangrenta guerra de atrito em montanhas inóspitalas, com combatentes egípcios sofrendo baixas pesadas em clima quente, entre população hostil e sem vitória clara à vista. A campanha durou oito anos, consumiu recursos que o país não tinha e desgastou a opinião pública. Quando Nasser finalmente retirou as tropas em 1967, a imagem de força do líder já estava abalada, e ele morreria três anos depois.
Hoje, os hutis (que têm apoio do Irã e controlam partes do Iêmem) atacam navios comerciais no Mar Vermelho em solidariedade aos palestinos na faixa de Gaza. A Arábia Saudita, aliada do Ocidente e parceira comercial do Egito, pressiona o Cairo para que entre na luta. O problema é que o Egito está quebrado. Sua economia enfrenta inflação alta, desemprego e dependência de ajuda estrangeira. Mergulhar em outra guerra no Iêmem abriria um segundo front de gastos militares sem ganho claro, e correria o risco de repetir o padrão de desgaste que derrotou Nasser.
Há também o fator político interno. A população egípcia lembra da tragédia dos anos 1960 e desconfia de guerras distantes que drenam o caixa. Além disso, o Egito já está envolvido em seu próprio conflito na península do Sinai, contra grupos ligados ao Estado Islâmico, que consome homens e recursos desde 2013.
Mas se o Egito recusa, deixa espaço para rival regional ocupar esse vazio. O Cairo controla o Canal de Suez, a artéria por onde passa uma parcela crucial do comércio marítimo global, e o Mar Vermelho é seu quintal estratégico. Ficar ausente de uma crise que mexe com essa região significa abrir mão de influência e barganha diplomática futura.
Por que importa: O Brasil importa petróleo do Oriente Médio e Ásia, e grande parte dessa rota passa pelo Mar Vermelho. Quanto mais instável a região fica, com hutis atacando navios e o Egito fraco demais para garantir segurança, mais cara fica a navegação, combustível sobe, e isso volta como inflação nas bombas de combustível e fretes de produtos brasileiros vindos da Ásia.
