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Trump promete negócios com Rússia e Ucrânia, enquanto Musk controla o que funciona no conflito

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Trump promete negócios com Rússia e Ucrânia, enquanto Musk controla o que funciona no conflito

Donald Trump anunciou que os EUA farão negócios tanto com a Rússia quanto com a Ucrânia após o fim da guerra, sinalizando uma mudança no posicionamento americano. Quase no mesmo momento, Elon Musk revelou que a SpaceX restringiu temporariamente o acesso da Ucrânia ao Starlink, sua rede de satélites, acusando o país de violar os termos de serviço ao usar a tecnologia para operações militares. Os dois eventos iluminam uma realidade incômoda: o destino da guerra na Ucrânia depende cada vez menos de decisões governamentais e cada vez mais de bilionários americanos e de suas prioridades comerciais.

A declaração de Trump sobre negócios futuros com ambos os lados não é apenas sobre pragmatismo. Ela reflete uma lógica na qual conflitos geopolíticos são vistos como oportunidades de mercado. Para a Ucrânia, devastada pela invasão russa desde 2022, isso significaria competir por investimento americano no mesmo espaço onde a Rússia também estaria buscando se reconstruir. Nenhuma das duas seria parceira privilegiada, mas fornecedoras de oportunidades. A mensagem implícita é que os valores que motivaram o apoio americano inicial ao país invadido cedem lugar à lógica de lucro.

O controle do Starlink pela SpaceX complica ainda mais esse cenário. A rede de satélites tornou-se crítica para a Ucrânia manter comunicações nas áreas de combate onde infraestruturas terrestres foram destruídas. Musk já havia sido controverso no conflito: em 2022, ofereceu e depois recuou de uma oferta de pagar o Starlink ucraniano, gerando tensão pública. Agora, ao restringir o serviço alegando violação de termos de serviço, ele exerce um poder que normalmente caberia a governos. A Ucrânia nega ter violado qualquer acordo, mas isso pouco importa se Musk decide que importa.

O padrão é claro: decisões críticas para a guerra não estão sendo tomadas em capitais, mas em salas de reunião de empresas americanas. O presidente eleito promete negócios com ambos os lados. Um bilionário controla a tecnologia que um dos lados depende para lutar. Nenhuma negociação diplomática oficial, nenhum tratado internacional, consegue ser mais potente que essas duas alavancas privadas. A SpaceX pode desligar o Starlink amanhã de novo. Trump pode decidir que negócios com a Rússia valem mais que suporte à Ucrânia.

Isso não significa que a Ucrânia está perdida. Significa que sua sobrevivência e seu futuro econômico agora dependem de um acordo tácito com atores privados americanos cujos interesses nem sempre se alinham com os da democracia ucraniana. É uma forma moderna de influência: não invasão, mas controle por dependência tecnológica e capital.

Por que importa: para o Brasil, isso ilustra um risco cada vez mais real: em conflitos estratégicos, países que não possuem tecnologia ou capital próprio viram peças no tabuleiro. A Ucrânia tem o Starlink porque não tem alternativa. O Brasil, importador de tecnologia e carente de satélites de comunicação soberana, está em posição parecida. Se amanhã um conflito envolver o Brasil ou seus interesses, empresas americanas terão poder de veto sobre o que funciona e o que não funciona. Além disso, a sinalização de Trump de negócios com qualquer país pouco importa sua ideologia reforça uma verdade incômoda: alianças geopolíticas viram menos confiáveis quando lucro entra em jogo.

Fontes