O Hezbollah enfrenta seu adversário mais perigoso, e não é Israel. Segundo David Hale, ex-embaixador dos EUA no Líbano, o que corrói a força da milícia é a emergência de uma alternativa política libanesa viável, baseada em Estado e paz. Enquanto o grupo perdeu sua aura de força invencível, espaço político se reabre em Beirute para atores que apostam em soluções civis, não armadas.
A tese inverte a narrativa comum. O Hezbollah construiu seu poder prometendo "resistência" contra Israel e capturando o voto de comunidades inteiras, especialmente xiitas do sul do Líbano. Mas quando a milícia se vê obrigada a governar junto com outros partidos, suas contradições aparecem. Prometia proteger seus eleitores; depois que controlava áreas inteiras, o Estado desapareceu, a economia ruiu, e a população sofreu invasões israelenses justamente por causa do arsenal do Hezbollah.
"Hezbollah sabe que seu inimigo real não é Israel; seu inimigo real é uma alternativa libanesa de paz e um Estado", afirma Hale em artigo publicado pela revista Beirut. A formulação toca no cerne da crise: o grupo não pode vencer uma milícia rival ou um exército externo usando apenas armas, mas enfraquece quando a política oferece outra saída. Se o Líbano conseguir eleger líderes comprometidos com instituições públicas funcionando, com segurança fornecida pelo Estado e não por grupos armados, o Hezbollah perde sua razão de ser.
O enfraquecimento é tangível. A milícia dominou a política libanesa durante duas décadas, bloqueando reformas e capturando receitas do Estado para financiar suas operações. Mas esse domínio criou um custo brutal para seus próprios eleitores: no sul do Líbano, comunidades xiitas sofreram bombardeios israelenses repetidos, inflação galopante destruiu salários, desemprego dispara. Quando as pessoas precisam escolher entre fidelidade ideológica e comida à mesa, a política muda.
A reabertura do espaço político em Beirute reflete isso. Novos candidatos começam a articular programas alternativos, reforma fiscal, combate à corrupção, fortalecimento de instituições civis. O Hezbollah responde com velhas promessas de resistência, mas a audiência mudou. Quanto mais tente se apresentar como garantidor de segurança, mais a população vê a conta que paga: cada confronto com Israel custa bairros inteiros destruídos; cada dia de milícia no poder custa educação e hospitais quebrados.
Por que importa: O Líbano abriga a segunda maior diáspora libanesa do mundo fora do Oriente Médio, centenas de milhares de brasileiros de origem libanesa. Além disso, qualquer enfraquecimento do Hezbollah mexe no equilíbrio de poder entre Irã e Israel no Golfo Pérsico, afetando tensões que já elevam o preço do petróleo e, por tabela, a inflação no Brasil. Um Líbano mais estável e menos controlado por milícias reduz a volatilidade geopolítica que encarece energia em São Paulo.
