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Rússia volta ao ringue olímpico enquanto Mianmar enfrenta a Justiça

GEOPOLÍTICA
Rússia volta ao ringue olímpico enquanto Mianmar enfrenta a Justiça

A Federação Internacional de Levantamento de Peso escolheu a Rússia para sediar seu campeonato mundial, a primeira competição de uma federação olímpica no país desde a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022. Simultaneamente, uma mulher que sobreviveu a crimes de guerra em Mianmar apresentou uma denúncia criminal na Dinamarca contra membros da junta militar do país. Os dois eventos, em paralelo, expõem uma divisão internacional sobre como lidar com regimes acusados de violações graves: a normalização esportiva de um lado, a cobrança judicial do outro.

A escolha da federação de levantamento de peso marca uma fissura nas sanções e isolamento impostos à Rússia após a invasão. Nem todas as organizações internacionais concordam em banir o país indefinidamente das competições. A Federação Internacional de Levantamento de Peso argumenta que o esporte transcende conflitos políticos e que eventos mundiais ajudam a manter a paz através da competição. Para Vladimir Putin, a medida sinaliza que o isolamento não é completo e que alguns setores da comunidade internacional estão dispostos a normalizar relações em certas áreas.

Em Mianmar, o cenário é oposto. A denúncia apresentada em Copenhague por uma sobrevivente de crimes de guerra abre uma frente legal contra a junta. A mulher viu sua aldeia em Chin State, no oeste do país, ser queimada pelos militares. Quarenta casas desapareceram nas chamas. Familiares e amigos foram mortos ou incapacitados por minas terrestres plantadas pelas forças de segurança. Assim como dezenas de milhares de pessoas de Chin State, ela foi forçada a fugir para a Índia. Agora, de onde está, pediu às autoridades dinamarquesas que investiguem e processem os responsáveis pelos crimes.

A diferença entre os dois casos revela uma realidade incômoda da geopolítica contemporânea: a mesma comunidade internacional que quer manter a Rússia isolada abre espaço para que regimes acusados de atrocidades sigam operando. A leveza com que a federação de levantamento de peso trata a presença russa contrasta com a determinação de sobreviventes em buscar justiça nas cortes internacionais. Uma via normaliza, a outra persegue. Ambas refletem como diferentes atores globais entendem o preço de conviver com Estados em guerra.

A Dinamarca, por seu turno, integra um grupo pequeno de nações que usam sua jurisdição para investigar crimes de guerra estrangeiros. Esse modelo, conhecido como jurisdição universal, permite que sobreviventes apresentem denúncias mesmo quando o crime ocorreu em outro país. É uma ferramenta usada contra torturadores, genocidas e militares que fugiram para o exterior. Mianmar também figura em denúncias de genocídio contra a minoria rohingya, mas a junta bloqueia investigações domésticas.

Por que importa: O Brasil não é membro das principais federações olímpicas internacionais com poder de veto, mas está atento a como as instituições globais equilibram isolamento e normalização de países em conflito. A decisão da federação de levantamento de peso sinaliza que o isolamento russo não é tão abrangente quanto parece, o que afeta a coesão de sanções internacionais que também impactam preços de commodities e moedas. Além disso, o precedente de investigações em cortes estrangeiras pode influenciar como o Brasil lida com denúncias de crimes de guerra quando tem envolvimento indireto, seja através de cidadãos brasileiros refugiados ou parcerias comerciais com países em conflito.

Fontes