O El Salvador enviou 2.000 soldados ao Haiti para recuperar quatro militares salvadorenhos que sumiram depois de uma emboscada nos arredores de Porto Príncipe, a capital haitiana. O anúncio foi feito nesta semana pela BBC World. A proporção da operação chama atenção: uma força equivalente a milhares de homens foi mobilizada para localizar apenas quatro desaparecidos, sinal de quão perigoso se tornou o terreno na capital haitiana.
A emboscada aconteceu nos subúrbios de Porto Príncipe, área que concentra os confrontos entre forças de segurança e grupos armados locais. Os quatro militares estavam em operação quando foram atingidos e passaram a constar como desaparecidos. Até o anúncio do envio da força de resgate, não havia confirmação pública sobre a condição ou o paradeiro dos homens.
O tamanho do deslocamento militar expõe um problema maior: a fragilidade da presença internacional no Haiti. O país vive há anos sem funcionamento pleno do Estado, com polícia superada, prisões cheias e territórios inteiros sob controle de grupos armados. Nesse cenário, até uma operação de busca, que em outro lugar seria rotineira, vira confronto armado de grande porte. Recuperar quatro soldados exigiu uma resposta de escala militar incomum justamente porque o ambiente é de guerra urbana, não de manutenção da paz.
O caso do El Salvador ilustra como os países da região têm assumido missões cada vez mais arriscadas no Haiti. Depois do terremoto de 2010, da saída do ditador Jean-Bertrand Aristide e de anos de instabilidade política, a comunidade internacional tentou várias fórmulas para estabilizar o país. Nenhuma consolidou um governo capaz de garantir segurança nas próprias ruas da capital. A consequência é que quem entra no Haiti hoje enfrenta um cenário de confronto aberto, e não de proteção de civis isolada.
Para os salvadorenhos, a operação também tem um custo político interno. O presidente Nayib Bukele construiu sua imagem国内 com a guerra contra as gangas e a queda da violência no El Salvador. Mandar 2.000 soldados para fora, para resgatar quatro companheiros, coloca em jogo a promessa de que nenhuma missão terminaria com soldados abandonados. Ao mesmo tempo, mostra que o modelo de segurança que ele popularizou em casa não se aplica sem esforço militar pesado fora dela.
Por que importa: o Haiti fica a menos de 1.500 quilômetros do nordeste do Brasil, e a instabilidade haitiana já chegou aqui em forma de migração de milhares de famílias para cidades como São Paulo e Porto Alegre. O Brasil conhece de perto o preço de operar no país: foram onze anos de Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), entre 2004 e 2017, com tropas brasileiras. Uma nova onda de colapso no Haiti tende a aumentar a pressão migratória sobre fronteiras e serviços públicos brasileiros, do SUS às escolas.
