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Israel vota sob suspeita sobre a própria democracia

ORIENTE MÉDIO
Israel vota sob suspeita sobre a própria democracia

Israel vai às urnas na próxima terça-feira, 27 de outubro, em uma eleição que funciona como um referendo sobre o premier Benjamin Netanyahu após três anos de guerra. O país escolhe novo parlamento em um momento em que analistas discutem se a própria democracia israelense sobrevive, e um resultado fragmentado pode complicar a situação em todo o Oriente Médio, de Gaza ao Irã.

É a primeira eleição nacional desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023. Desde então, o debate público no país girou em torno das falhas de segurança do governo, das guerras que se seguiram e das cobranças por responsabilidade. Netanyahu é o centro dessa disputa: as urnas de outubro decidem se ele segue no poder ou se uma nova coalizão assume o comando de um país transformado por três anos de conflito.

O risco imediato é o empate. Se o voto terminar dividido entre vários partidos, começa uma negociação de coalizão que pode levar semanas e entregar um governo instável, exatamente quando as decisões sobre Gaza e sobre a relação com o Irã precisam ser tomadas. Nesse cenário, a pressão externa também cresce. Estados árabes vêm defendendo que se recusem ao que chamam de hegemonia israelense e que construam um esquema de segurança regional independente de Washington, enquanto os Estados Unidos observam de perto quem vai sentar na cadeira de premiê.

É nesse ponto que a discussão sobre a democracia israelense ganha peso. Pesquisadores do Carnegie Endowment, centro de estudos em Washington, argumentam que Israel sob Netanyahu se tornou um regime de autoritarismo competitivo: as eleições continuam existindo, mas o terreno é desequilibrado, porque o governo usa o aparelho do Estado a favor de quem já está no poder. O pesquisador Andrew O'Donohue e o acadêmico Oded Haklai, em artigo na revista Journal of Democracy, identificam três indicadores dessa deriva e concluem que a eleição de 27 de outubro é a melhor chance do país de frear o retrocesso democrático antes que seja tarde demais.

O resultado também será lido fora das fronteiras. Na Índia, a pergunta central é se os interesses e as instituições que sustentam a cooperação bilateral com Israel são fortes o bastante para manter o ritmo sob um governo diferente, segundo análise do The Diplomat. Ou seja: parceiros comerciais e estratégicos de Israel estão calculando se as relações construídas durante os anos de Netanyahu sobrevivem a uma troca de comando.

Por que importa: O que acontece em Israel não fica em Israel. Instabilidade no Oriente Médio mexe com o preço do petróleo e do gás no mercado internacional, e esses choques chegam ao Brasil na forma de conta de luz, gás de cozinha e preço na bomba. Um governo fragmentado em Israel, com decisões travadas sobre Gaza e Irã, aumenta a chance de o preço do barril subir e o dólar disparar, dois movimentos que empurram a inflação para cima e apertam o bolso do brasileiro.

Fontes