Olh no Mundo
Geopolítica & Economia
O Essencial de Hoje +++
Brent em US$ 108.33/bbl·Brent em US$ 108.33/bbl·
Tecnologia·3 min de leitura

IA entra na máquina do governo americano

TECNOLOGIA
IA entra na máquina do governo americano

A Anthropic, empresa americana que criou o assistente de inteligência artificial Claude, fechou um acordo com o governo dos Estados Unidos para levar sua tecnologia a todos os níveis do poder público com 40% de desconto. O combinado inclui prefeituras, governos estaduais e comunidades indígenas, além dos ministérios federais, e vale tanto para quem compra direto da empresa quanto para quem contrata por meio de grandes provedores de nuvem. É a vez mais forte até agora de uma ferramenta de IA virar infraestrutura pública, quase como um sistema operacional que o Estado licencia em vez de desenvolver sozinho.

O acordo foi firmado com a Administração de Serviços Gerais (GSA), o órgão que centraliza compras e contratos do governo federal americano, em um programa que a própria Anthropic chama de OneGov. Pela primeira vez, o desconto se estende a todas as versões do produto ao mesmo tempo: a licença corporativa Claude Enterprise, a versão voltada a órgãos públicos e o acesso programático de desenvolvedores. O pacote também inclui um programa dedicado para ajudar idosos a lidar com a tecnologia, um detalhe que mostra como a estratégia agora é fazer a IA entrar no dia a dia da vida civil, e não apenas em escritórios de tecnologia.

O que está em jogo é uma corrida para transformar assistentes de IA em parte da infraestrutura do Estado, na mesma lógica em que governos licenciam sistemas de e-mail, folha de pagamento e tributação. Quando o governo americano compra a tecnologia com desconto em escala nacional, ele reduz o custo para si e, ao mesmo tempo, cria um padrão: milhões de servidores passam a trabalhar com a mesma ferramenta, e ela vira o ponto de referência do mercado público. Empresas de outros países percebem que entrar tarde nessa disputa pode significar ficar de fora da definição de como o serviço público vai funcionar nos próximos anos.

É aí que entra a história do Vietnã, que ilustra o outro lado dessa moeda. O país montou uma competição nacional de inteligência artificial para estudantes do ensino médio, chamada "AI or Behind" (IA ou ficar para trás), que em novembro de 2026 começou sua fase nacional com avaliação segundo padrões internacionais da Pearson e da Certiport. Os jovens são testados em fundamentos de IA generativa, resolução de problemas, engenharia de instruções e ética. O nome do certame resume a pergunta que atravessa o mundo em desenvolvimento: sem uma base preparada, um país se torna consumidor pronto da tecnologia feita em outro lugar.

Esses dois movimentos descrevem o mesmo deslocamento com resultados opostos. Os Estados Unidos usam o poder de compra do governo para baratear a ferramenta e enraizá-la no serviço público; o Vietnã tenta preparar a população para produzir e usar a tecnologia em vez de apenas adotá-la. Um está definindo as regras do jogo pelo lado da demanda, o outro tenta se garantir pelo lado da formação. Enquanto isso, a maioria dos países assiste à disputa sem uma estratégia clara de entrada.

Por que importa: Brasil e Estados Unidos compartilham um mercado de serviços públicos grande, digitalizado e pressionado por orçamento apertado. Um acordo de compra governamental com desconto no modelo americano pode servir de referência para prefeituras e ministérios brasileiros negociarem contratos de IA, e o preço negociado por Brasília acaba pesando no custo de tecnologia que sai para o cidadão. Para a população, a pergunta prática é a mesma do Vietnã: se a máquina entrar nos órgãos públicos antes de a escola ensinar a usá-la, o país compra a ferramenta, mas fica para trás na capacidade de criar a própria.

Fontes