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Israel vota sob suspeita: analistas dizem que o país deixou de ser uma democracia plena

ORIENTE MÉDIO
Israel vota sob suspeita: analistas dizem que o país deixou de ser uma democracia plena

Israel vota na terça-feira, 27 de outubro de 2026, e a pergunta que ronda a eleição não é apenas quem vai vencer, mas se o país ainda pode ser chamado de democracia. Uma análise publicada em outubro por dois pesquisadores, Oded Haklai e Andrew O'Donohue, no Journal of Democracy, e repercutida pelo think tank Carnegie Endowment (Centro Carnegie para a Paz Internacional), conclui que, sob o governo de Benjamin Netanyahu, o país se transformou em um regime de autoritarismo competitivo. A eleição seria, segundo eles, a última chance de conter o retrocesso democrático antes que seja tarde demais.

Autoritarismo competitivo é um conceito que descreve um sistema em que as eleições acontecem e a oposição disputa o poder, mas o governo usa o aparato do Estado a favor próprio, de forma a deixar a disputa desigual. O voto existe, mas o jogo está inclinado. Segundo Haklai e O'Donohue, três indicadores-chave mostram que Israel já caminhou nessa direção, o que faz com que o país ocupe hoje uma zona cinzenta entre democracia e autocracia. A conclusão é pesada porque Israel costuma ser apresentado como a única democracia plena do Oriente Médio.

O voto ocorre em meio a uma guerra regional que redesenha o papel de Israel nas alianças ocidentais. O país enfrenta o custo político de um conflito prolongado, pressões externas sobre a condução da guerra e uma sociedade dividida entre quem apoia o governo e quem acusa Netanyahu de colocar a sobrevivência política acima das instituições. Ele está no poder há quase duas décadas, com interrupções, e enfrenta processos judiciais enquanto comanda o país. Para os autores da análise, essa combinação de guerra, polarização e concentração de poder é o que transformou a disputa de terça-feira em um teste de sobrevivência da democracia israelense.

A eleição, portanto, tem duas camadas. A primeira é a disputa comum por cadeiras no parlamento e pela cadeira de primeiro-ministro. A segunda é o julgamento do próprio desenho institucional do país: se o eleitorado reforça Netanyahu, o retrocesso ganha respaldo popular; se o derrota, abre-se uma janela para reconstruir os freios e contrapesos que os pesquisadores dizem estar enfraquecidos. O jornal israelense Haaretz e a própria cobertura do Carnegie tratam a urna como a última ferramenta disponível antes que o autoritarismo competitivo se consolide.

Para fora, a dúvida sobre a democracia israelense chega em um momento delicado. Aliados ocidentais que sustentam acordos de segurança, comércio e ajuda militar com Israel agora precisam responder a uma pergunta antes ignorada: até que ponto se apoia um governo acusado de enfraquecer as próprias instituições? Essa discussão já aparece em capitais europeias e em Washington, e afeta a margem de manobra de Israel nas negociações da região.

Por que importa: o resultado da eleição israelense mexe com o preço do petróleo e do gás no mundo, combustíveis que o Brasil importa e que aparecem na conta de luz e no custo dos produtos. Uma Israel mais isolada ou mais estável muda o equilíbrio do Oriente Médio, e o brasileiro sente isso no dólar, na inflação e, no fim das contas, no que paga na bomba e no supermercado.

Fontes