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Brasil quer comandar a regulação global de IA antes que o Ocidente decida por todos

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Brasil quer comandar a regulação global de IA antes que o Ocidente decida por todos

A presidência brasileira do G20 este ano transformou a inteligência artificial em tema de negociação entre as 19 maiores economias e a União Europeia. O objetivo é claro: países em desenvolvimento não querem ficar de fora quando as regras planetárias da IA forem escritas. A COP30 em Belém, em novembro, será o palco onde essa agenda diplomática ganha força política e climática.

Até agora, quem dita as normas de IA são os EUA, a China e a Europa. Países do Sul Global assistem à distância enquanto gigantes tecnológicos e potências estabelecem padrões que afetam bilhões de pessoas. O Brasil, junto com Índia, Indonésia e África do Sul, quer mudar esse jogo. A ideia é construir uma estrutura de governança que reconheça os interesses econômicos e climáticos do mundo em desenvolvimento, não apenas as prioridades de Washington, Pequim ou Bruxelas.

A estratégia brasileira conecta dois tabuleiros. Primeiro, o G20 discute um conjunto de regras para governança de IA que proteja soberanias nacionais e favoreça a transferência de tecnologia entre países. Segundo, a COP30 em Belém coloca a inteligência artificial a serviço do clima: monitoramento de florestas via satélite e modelos preditivos para seca e chuvas excessivas. A mensagem é: "A IA pode ser uma ferramenta para o desenvolvimento sustentável do Sul, não apenas um produto de luxo do Norte".

Essa diplomacia não é abstrata. Países em desenvolvimento precisam de capacidade técnica para usar IA no agronegócio, na saúde pública e na defesa ambiental, sem depender de empresas americanas ou chinesas. Se as regras globais forem escritas sem eles, ficarão presos a padrões que privilegiam quem já tem poder tecnológico. Brasil, Índia e companhia têm algo valioso aqui: dados. Imensos territórios, biomas únicos, populações volumosas. Quem controla as regras de como esses dados são usados controla o valor que deles se extrai.

O lado climático é ainda mais urgente. Desmatamento na Amazônia, seca no Nordeste, enchentes no Sul: todos essas questões ganham resolução com IA que processa imagens de satélite, dados meteorológicos e informações em tempo real. Mas para países pobres usarem essa tecnologia de forma soberana, é essencial que a governança global não as deixe refém de licenças caras ou patentes intransponíveis. A presidência brasileira do G20 traz justamente esse ponto à mesa: como a IA pode ser um instrumento de adaptação climática para quem mais sofre com a mudança do clima e tem menos recursos para enfrentá-la.

A negociação não será fácil. EUA e China têm incentivos opostos, mas ambos lucram com o status quo. A Europa quer exportar seu modelo regulatório rígido como padrão planetário. Mesmo assim, o Brasil constrói coalizões. No G20, conseguiu espaço para debater "direitos, riscos e benefícios" da IA com olhar do Sul. Na COP30, transformará Belém em vitrine de como a IA serve ao clima e à soberania nacional, não apenas ao lucro corporativo.

Por que importa: A regulação global de IA vai definir em que termos o Brasil conseguirá usar essa tecnologia em setores estratégicos: agronegócio, energia, exploração mineral e defesa ambiental. Se as regras forem escritas por EUA, China e Europa sem participação brasileira efetiva, o país fica preso a estruturas que privilegiam quem já controla a tecnologia. Além disso, o preço que o brasileiro paga na energia, na comida e em serviços públicos depende cada vez mais de como máquinas inteligentes organizam esses setores. Ter voz no desenho dessas regras é convertir influência diplomática em vantagem econômica e tecnológica futura.

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