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Mercosul e UE tentam desatar nó comercial de 25 anos

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Mercosul e UE tentam desatar nó comercial de 25 anos

A União Europeia e o Mercosul retomaram negociações para fechar um acordo comercial que estagna há mais de duas décadas. A nova rodada de conversas busca contornar as divergências sobre regras ambientais e sanitárias que repeliram os dois blocos repetidas vezes desde 1999, num momento em que europeus e sul-americanos sentem pressão para diversificar parceiros longe da Ásia.

O acordo, se aprovado, criaria uma zona de livre comércio entre os quatro países do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) e os 27 membros da UE. Significa derrubar ou reduzir tarifas em milhares de produtos, de alimentos a máquinas. Hoje, exportar uma tonelada de carne bovina brasileira para a Europa paga impostos pesados; um fabricante de autopeças argentino enfrenta barreiras similares. O comércio entre os blocos gira em torno de 120 bilhões de dólares por ano, volume que ambos apostam que cresceria significativamente sem as proteções.

A tranca nunca foi sobre números. A UE exige que o Mercosul reforce leis de proteção ambiental e cumprimento de compromissos climáticos antes de abrir mercado. Europeus temem que produtos vindos de fazendas com padrões ambientais frouxos inundem seu mercado. O Mercosul, por sua vez, reclama que essas exigências são na verdade protecionismo disfarçado: uma forma de os europeus impedirem que carne e soja baratas sul-americanas compitam com seus produtos mais caros. Discussões sobre segurança alimentar e rastreabilidade agravaram o impasse.

O cenário mudou. Tanto a UE quanto o Mercosul estão reavaliando suas estratégias comerciais globais. Europeus se assustaram com a dependência de energia russa (exposta na guerra da Ucrânia) e agora buscam fontes de alimentos e matérias-primas mais diversificadas. América do Sul, por seu lado, vê a China consolidar sua posição como parceiro comercial preferencial e quer não ficar inteiramente amarrada a Pequim. Um acordo com a UE representaria uma alternativa.

As negociações enfrentam ainda resistências domésticas. Agricultores franceses temem concorrência de carne barata; políticos verdes alemães questionam qualidade ambiental de produtos do Mercosul. No lado sul-americano, alguns setores industriais brasileiros e argentinos receiam abertura ao capital europeu em serviços e manufatura. Ainda assim, diplomatas de ambos os lados consideram o timing mais favorável que no passado: a guerra comercial entre EUA e China empurra blocos para buscar alternativas.

A expectativa é que esta rodada avance em temas técnicos e, se houver avanços concretos em padrões ambientais e sanitários, uma assinatura poderia ocorrer dentro de meses ou poucos anos. Nenhuma data está confirmada.

Por que importa: Um acordo UE-Mercosul impactaria diretamente o bolso do brasileiro. Carne, soja e café (nossas principais exportações) ganhariam acesso maior ao mercado europeu, potencialmente elevando preços internacionais e rentabilidade de produtores. Isso puxaria mais investimento agrícola, empregos no campo e arredores. Por outro lado, produtos europeus de melhor tecnologia ficariam mais baratos aqui, reduzindo custos de máquinas e insumos industriais. O preço final ao consumidor dependeria do saldo: se soja e carne sobem lá fora, pode subir aqui também. A taxa de câmbio também sofreria pressão, mais demanda externa por real poderia fortalecer a moeda ou estabilizá-la. Em resumo: é um acordo que toca tanto no agronegócio quanto na inflação e no emprego.

Fontes