O ex-presidente da Coreia do Sul, Yoon Suk Yeol, foi preso nesta semana e se tornou o primeiro presidente sul-coreano detido criminalmente na história do país. Milhares de quilômetros dali, o chanceler alemão, Olaf Scholz, trocava acusações com a oposição em debate televisivo, com a extrema direita do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) firmemente estacionada em segundo lugar nas pesquisas. Duas democráticas ricas e estáveis, duas pressões muito parecidas: instituições testadas por extremos políticos.
Na Coreia do Sul, a prisão encerra semanas de impasse entre investigadores e o serviço de segurança de Yoon. O ex-presidente havia decretado lei marcial em dezembro, num golpe que fracassou em poucas horas depois que o parlamento rejeitou a medida e a população foi às ruas. O que se segue agora é um teste duplo: punir quem atacou a democracia sem que o processo pareça vingança política, num país já dividido entre conservadores e progressistas.
A Alemanha vive uma versão eleitoral do mesmo estresse. Nas eleições de 23 de fevereiro, a AfD, partido de extrema direita, lidera as pesquisas em segundo lugar, e a imigração domina o debate como tema central. No confronto televisivo, Scholz e os candidatos da oposição se digladiaram numa disputa que revela o quanto a política alemã, tradicionalmente moderada, está polarizada. A pergunta que fica é se os partidos tradicionais conseguirão formar governo sem depender da AfD, algo que hoje juram evitar.
Os dois casos se iluminam mutuamente. Em Seul, a resposta foi institucional: o parlamento reagiu rápido, a Justiça avançou e o autor do golpe acabou algemado. Em Berlim, o teste ainda está em aberto: a extrema direita disputa o poder pelas urnas, dentro das regras, e o resultado de fevereiro dirá quanto espaço ela terá num futuro governo.
O desfecho alemão não é problema só dos europeus. Um governo mais à direita em Berlim tende a mudar o peso da Europa na guerra na Ucrânia e a postura comercial da União Europeia, incluindo as negociações com o Mercosul.
Por que importa: a Alemanha é a maior economia da Europa e um dos principais parceiros comerciais do Brasil. Se a polarização levar Berlim a uma postura mais protecionista, o acordo entre União Europeia e Mercosul, que afeta exportações brasileiras de carne, açúcar e soja, pode esfriar de vez. E o caso sul-coreano lembra um ponto que vale para qualquer democracia: instituições só resistem se reagirem rápido quando são testadas.
