Nicolás Maduro foi empossado nesta sexta-feira (10) para um terceiro mandato de seis anos como presidente da Venezuela, em uma cerimônia realizada em Caracas apesar da contestação interna e externa ao resultado da eleição de julho de 2024. A oposição venezuelana, que diz ter comprovantes das atas eleitorais que comprovam a vitória de Edmundo González, rejeitou a posse. Os Estados Unidos reagiram aumentando a recompensa oferecida por informações que levem à captura do presidente venezuelano.
A crise nasceu da eleição de 28 de julho. O Conselho Nacional Eleitor, controlado por aliados do chavismo, declarou Maduro vencedor, mas nunca publicou as atas detalhadas das urnas. A oposição, por sua vez, reuniu milhares desses comprovantes digitalizados e afirma que González venceu com larga vantagem. Diante disso, grande parte da comunidade internacional passou a tratar o resultado oficial como fraudado, e González, que se exilou na Espanha após ser alvo de mandado de prisão, é reconhecido como presidente eleito por vários países.
O terceiro mandato amplia o cerco sobre Caracas. Os Estados Unidos, que já mantinham sanções pesadas contra o setor de petróleo venezuelano e o círculo próximo de Maduro, escalaram a pressão ao elevar de 25 para 50 milhões de dólares a recompensa por informações sobre o paradeiro e as operações financeiras do presidente. A mensagem é clara: Washington não reconhece a legitimidade do novo governo e aposta em sufocá-lo economicamente para forçar uma transição.
Para o Brasil, a posse chega como um problema diplomático na porta de casa. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva tentou durante meses mediar uma saída negociada entre o governo venezuelano e a oposição, propondo a realização de novas eleições, iniciativa que fracassou. Agora, Brasília precisa equilibrar a relação com os Estados Unidos, principal parceiro comercial, e a vizinhança com a Venezuela, evitando ao mesmo tempo endossar um processo eleitoral contestado e romper por completo com Caracas.
O desdobramento mais concreto, porém, acontece longe dos palácios: na fronteira de Roraima. Desde 2018, mais de 7 milhões de venezuelanos deixaram o país, e parte deles atravessa Pacaraima em busca de refúgio e trabalho no Brasil. A percepção de que Maduro permanecerá no poder por mais seis anos, sem solução política à vista, tende a renovar o fluxo migratório e a pressionar serviços públicos e políticas de acolhimento em Boa Vista e em outros estados.
Por que importa: a Venezuela é vizinha do Brasil, e a instabilidade lá repercute aqui em três frentes. Primeiro, a migração: mais venezuelanos devem cruzar a fronteira de Roraima, exigindo recursos federais para acolhimento e integração. Segundo, o comércio e a energia: sanções mais duras contra a estatal PDVSA podem afetar projetos e negócios de empresas brasileiras no país. Terceiro, a diplomacia: Brasília seguirá espremido entre Washington e Caracas, com risco de desgaste político se optar por reconhecer, ou não, o novo governo de Maduro.
