O presidente Donald Trump falou por videoconferência nesta quinta-feira no Fórum Econômico Mundial, em Davos, e prometeu uma "era de ouro" para os Estados Unidos. A condição, segundo ele, é direta: empresas que não produzirem em solo americano vão pagar tarifas para vender no maior mercado de consumo do mundo.
A mensagem ecoa o projeto central da nova gestão: trazer a fábrica de volta aos EUA pela força. De um lado, a ameaça tarifária castiga quem produz fora. Do outro, o endurecimento migratório em casa. Na mesma semana, o governo Trump iniciou operações de deportação em Chicago e outras cidades americanas, enfrentando promessa de resistência jurídica de ativistas e prefeitas locais.
Os dois movimentos formam um pacote coerente. A lógica é simples: se importar fica caro com tarifas, e a mão de obra barata estrangeira escasseia com a repressão migratória, as empresas teriam incentivo para abrir fábricas dentro dos Estados Unidos e contratar trabalhadores americanos. É uma aposta em reindustrialização por decreto, em vez de por competitividade.
O problema é que o mundo não funciona como uma linha de montagem isolada. Cadeias globais de produção são entrelaçadas por décadas de comércio aberto. Um carro montado nos EUA depende de componentes da Ásia, do México e da América do Sul. Quando Washington taxeia insumos importados, o próprio setor industrial americano paga a conta, e o custo se espalha pelo mundo em forma de inflação e retaliação.
Davos, encontro anual de CEOs e governantes na Suíça, costuma ser palco de defesa do livre comércio. Trump usou o palco para dizer o oposto. A plateia de executivos ouviu que a era da globalização sem fronteiras acabou, e que o acesso ao consumidor americano agora tem preço: produzir lá dentro.
Por que importa: o Brasil exporta aço e produtos agroindustriais para os Estados Unidos, e um tarifaço amplo atingiria justamente esses setores. Aço brasileiro já convive com barreiras americanas, e novas tarifas sobre commodities encareceriam o acesso a um dos principais mercados do agronegócio nacional. Além disso, se as tarifas acelerarem a inflação nos EUA, o Federal Reserve, banco central americano, pode segurar juros altos por mais tempo, o que pressiona o câmbio e encarece o dólar no bolso do brasileiro.
